Ninguém te prepara para o momento que seus pais, aqueles que passaram anos repetindo que uma gravidez indesejada destruiria sua vida, se transformam em pessoas que torcem pela “escapulida” que os transformará em avós. Quando uma amiga de infância engravidou – por acidente – aos 29 anos, contei o caso para os meus pais como se fosse um conto de terror, ao que eles responderam: “Já estava na hora, né? Quantos anos vocês acham que têm?”.
Aos 30, disfarço minha indecisão sobre ter ou não ter filhos com piadas ligadas ao medo da gravidez na adolescência. Também aos 29, passei por um desses sustos por conta de uma menstruação atrasada. Minha mãe estava comigo quando fiz o teste (negativo, ufa!) e, para me acalmar, disse: “E se fosse positivo, qual o problema? Você tem emprego, um relacionamento, a gente daria um jeito.”
Ela disse todas as coisas certas, exatamente o que eu precisava ouvir para me recuperar daqueles dias em que achei que a vida estava me forçando a uma mudança de rota radical. Ainda assim, ouvi-la dizer com tanta naturalidade de que ter um filho naquele momento era normal, o esperado – e até desejado – para alguém da minha idade me pegou de surpresa.
Eu não estou pronta para ser mãe, mas ela já está pronta para ser avó.
A verdade é que quando olho para os meus pais e para os meus sogros, não tenho dúvidas de que eles seriam (serão?) avós maravilhosos. Eu, que cresci extremamente próxima dos meus próprios avós e fui transformada por essa relação, gostaria muito de poder proporcionar esse vínculo agora que eles têm saúde, estão ativos e podem aproveitar ao máximo.
Queria poder transformá-los em avós hoje mesmo – o problema é que, para isso, eu teria que ser a mãe e preciso entender que não devo filhos (ou netos) a ninguém.

Fiquei pensando nisso ao assistir a segunda temporada de Ilhados Com a Sogra, que estreou na Netflix logo no início do ano. O reality show combina provas físicas com desafios de convivência em que duplas formadas por sogras e noras/genros precisam colocar as diferenças de lado e se unir para conquistar um prêmio de R$500 mil reais. Na maioria das famílias participantes, os conflitos costumam girar em torno de ciúmes e disputas por dinheiro. Na família Damasceno, contudo, o drama girava em torno da sogra que não aceitava que não teria netos.
De um lado, portanto, estava Rose, nostálgica por um futuro que nunca chegará, e do outro Jéssica, sua nora, uma mulher que aos 23 anos já tinha a convicção de que não queria ter filhos. Ela e o marido, Mateus, entenderam que seria mais prático recorrer a uma vasectomia, procedimento menos invasivo que uma laqueadura tubária e mais definitivo do que o uso contínuo de um método contraceptivo que pode demandar manutenção constante e/ou efeitos colaterais desagradáveis. Até aí tudo bem, nota 10 em comunicação, resolução de problemas e alinhamento de planos e objetivos para eles.
Para Rose, contudo, essa decisão representava o fim de um sonho. Mais do que isso, até: em uma conversa com outros participantes, Rose admitiu que sua dor ia além do presente. Quando jovem, desejava ter mais filhos, mas após o nascimento do único, não conseguiu engravidar novamente. Os tratamentos disponíveis na época eram caros e o desejo foi jogado para baixo do tapete, uma falta que provavelmente encontrou consolo na ideia de um dia ter a casa cheia de netos – uma história que talvez muitos reconheçam, ainda que com suas próprias especificidades.
Só que a vida real é mais complexa que nossas projeções e os filhos são (somos!) indivíduos com vontade própria e não uma extensão de seus pais. Eles têm (temos!) vida própria e nenhuma obrigação de realizar aquilo que não foi possível para a geração anterior. Não somos e nem podemos ser guardiões dos sonhos frustrados de nossos pais. Não somos uma continuação linear de desejos interrompidos ou esperanças adiadas.
Temos nosso próprio caminho, que muitas vezes irá divergir da expectativa de quem nos criou. Existe uma bonita oportunidade de aprendizado aí, ainda que dura.

Lembrei de quando eu mesma, na infância, implorava por uma irmãzinha, alguém para brincar comigo e me fazer companhia. Meus pais sempre foram enfáticos ao dizer que ter outro filho não estava nos planos da nossa família e que eu deveria aceitar aquela condição de filha única.
Sabendo de muitas pessoas que decidem ter mais de um filho pensando em alegrar uma criança, satisfazer o desejo de ter um menino ou menina, ou até salvar uma relação ao satisfazer o desejo de outro em detrimento do próprio, fico feliz que meus pais se mantiveram firmes em sua decisão. Penso, inclusive, em responder com essa história quando ouvir alguma cobrança em tom de brincadeira. Não foi essa autonomia que eles me ensinaram?
Brincadeiras a parte, a história de Rose e Jéssica mostra a urgência em reconhecer que a decisão de ter ou não filhos pertence apenas a quem os gerará e criará, em especial nesse momento em que cada vez mais pessoas estão optando por não ter filhos ou por adiar a maternidade, pelos mais diversos motivos. Decidir não ter filhos não tem nada a ver com ingratidão ou egoísmo, mas sim com autonomia. Os desejos e expectativas de uma geração não podem ser impostos à próxima como dívida emocional.
Para Rose e tantas pessoas de sua geração, aceitar a escolha de Mateus e Jéssica será um processo muito maior e mais complexo do que um reality show é capaz de capturar. O tema, inclusive, já foi tema de reportagem nos Estados Unidos: cada vez mais idosos estão passando pelo luto de não se tornarem avós.
Talvez Rose nunca se sinta completamente confortável com a ausência dos netos que imaginou. Mas a vida real nunca se molda exatamente às nossas expectativas – e aprender a conviver com essa dissonância é, muitas vezes, o maior ato de amor que podemos oferecer.
Sobre a autora
Anna Vitória Rocha é jornalista e parte do time de marketing da Oya Care.






