Como uma autêntica membra da geração millennial, uma das minhas grandes certezas é esta: para muitas garotas que assistiram O Diabo Veste Prada num momento formativo da vida, poucas imagens de sucesso se fixaram tanto no nosso imaginário quanto Andy Sachs atravessando Nova York com casacos glamorosos, cafés da Starbucks nas mãos e Vogue, da Madonna, tocando ao fundo.
Outra fantasia millennial da mesma época foi De Repente 30, que ajudou a consolidar uma ideia curiosa: a de que os 30 anos seriam o momento em que tudo finalmente se encaixaria. Carreira estabelecida, guarda-roupa impecável, vida amorosa resolvida. Uma promessa que talvez tenha provocado conforto e ansiedade na mesma medida.
Curiosamente, os dois filmes fazem algo parecido: desmontam esse ideal de ambição e revelam o vazio de uma vida construída apenas em torno do trabalho. Ao final de O Diabo Veste Prada, Andy joga o celular na fonte e recusa o caminho percorrido por Miranda Priestly. Jenna, por sua vez, ganha a chance de recomeçar e abraça uma vida menos grandiosa e mais pé no chão, em que o sucesso aparece na forma de uma casa no subúrbio ao lado de seu par romântico.
Não é que esses filmes estivessem errados ao sugerir que suas protagonistas não deveriam sacrificar seus valores em nome da carreira. Mas, vinte anos depois, essa narrativa parece pequena demais — inclusive para um blockbuster de apelo nostálgico como O Diabo Veste Prada 2.
De vilã da história, o tempo transformou Miranda Priestly num ícone adorado, cuja moral ambígua e rigidez implacável se tornaram um alívio cômico meio banguela, um aceno carinhoso ao passado — diferente da denúncia de um ambiente de trabalho brutal que o primeiro filme representava. Mas não é sobre isso que quero falar hoje.
A parte que mais me chamou atenção na continuação aparece quase como um detalhe descartável. Não é uma grande reviravolta nem o conflito central da história. É uma frase rápida, que passa quase despercebida: Andy Sachs congelou óvulos.
O que os óvulos congelados de Andy dizem sobre a geração millennial
Ao reencontrar a ex-colega Emily, Andy comenta que seus “filhos” moram num consultório médico — são óvulos congelados. O detalhe importa porque ajuda a construir uma personagem que precisa, mais uma vez, funcionar como espelho e aspiração para mulheres millennial que assistiram ao filme na adolescência e agora chegaram à vida adulta. A priori, portanto, o congelamento de óvulos aparece como símbolo de sucesso tanto quanto as botas e os casacos bonitos.
Quem cresceu perseguindo a imagem da mulher que atravessa a cidade de botas de salto e café na mão talvez tenha chegado aos 30 diante de um desafio parecido com o de Andy: conciliar projetos de vida que disputam o mesmo tempo e espaço em uma só linha narrativa. Os anos mais decisivos para a construção da carreira frequentemente coincidem com o período em que engravidar tende a ser biologicamente mais simples.
A saída encontrada por muitas mulheres — e bastante discutida por aqui, inclusive — é o congelamento de óvulos.
O congelamento de óvulos não resolve o custo que a maternidade impõe à carreira das mulheres nem corrige desigualdades estruturais. Não elimina a sobrecarga, não cria redes de apoio e não torna o mercado de trabalho menos hostil às mães. Também não representa uma garantia futura de gravidez. Mas pode oferecer algo valioso: mais tempo e mais margem de escolha.
Existe algo de paradoxal nisso. Uma tecnologia que amplia possibilidades individuais também pode funcionar como adaptação a problemas que continuam sem solução coletiva. Afinal, seria ótimo se o congelamento de óvulos existisse apenas para mulheres que desejam esperar. Na prática, muitas recorrem a ele porque precisam. Desse total, o número das que podem fazer tudo isso ainda é pequeno.
Seria confortável imaginar que uma vida profissional borbulhando de possibilidades fosse o único fator entre uma mulher e a decisão de ter ou não ter filhos. Na prática, quem chegou à vida adulta nos anos 2020 sabe que os obstáculos são bem menos glamorosos do que uma montagem de comédia romântica faz parecer.
Por que as mulheres estão tendo menos filhos
Uma pesquisa feita nos Estados Unidos mostrou que a falta de parceria é um dos fatores que mais levam mulheres a congelar óvulos, muito mais do que a carreira. Termos que entraram no nosso vocabulário nos últimos anos, como heteropessimismo e red pill, ajudam a nomear algumas tensões contemporâneas em torno dos relacionamentos. Soma-se a isso um cenário de instabilidade econômica, política, social e ambiental que torna mais difícil esse gesto profundamente otimista que é decidir colocar uma nova pessoa no mundo.
E existe ainda uma questão menos falada: quem pode esperar? Porque ganhar tempo também exige recursos. A possibilidade de adiar decisões, planejar futuros e ampliar escolhas não está distribuída igualmente.
O Diabo Veste Prada 2 não ignora esse cenário e escolhe justamente a crise do jornalismo para mostrar que muitas promessas feitas há vinte anos não se cumpriram. Andy se torna a jornalista respeitada que sempre quis ser, mas isso não a torna imune às demissões em massa que atravessam a profissão. Nem Miranda Priestly parece completamente protegida diante do poder de executivos e plataformas capazes de transformar décadas de trabalho numa discussão sobre métricas e cliques.
Talvez esse seja o momento em que o filme deixa de ser apenas nostálgico e começa a tocar numa experiência muito familiar e nada confortável. Para nós, mocinhas de nossas próprias comédias românticas, a promessa era clara: estudar, construir currículo, trabalhar duro e alcançar estabilidade. Mas muita gente chegou justamente quando esse chão começou a ceder. Para algumas pessoas, ele sequer existiu.
Eu mesma me formei em jornalismo sonhando em trabalhar numa grande revista, mas cheguei quando o palco já parecia desabar. Bom diploma, boas credenciais e um currículo sólido não garantiram a estabilidade profissional que me prometeram. Quando penso na decisão de ter filhos, tudo isso também entra na conta.
Precisamos falar sobre descongelar os óvulos
Saber que Andy Sachs congelou óvulos não me surpreendeu tanto quanto a única outra vez em que ela volta a mencioná-los. Ao imaginar um possível futuro com liberdade criativa e uma carreira consolidada, ela descreve um cenário em que as coisas podem dar tão certo que talvez consiga até descongelar um óvulo.
E foi aí que o filme bateu pra mim.
Pessoas que adiam a maternidade nem sempre estão apenas esperando o momento certo da carreira para fazer uma pausa e focar na família. Talvez “esperar” nem seja a palavra certa. Muitas vezes, não se trata de uma decisão completamente livre, mas de uma negociação contínua com o tempo, com o trabalho, com os relacionamentos, com o dinheiro, com aquilo que a vida permite em determinado momento.
Se no primeiro filme Andy escolhe o caminho oposto ao de Miranda — um trabalho que lhe permita mais espaço para a vida pessoal, sem abrir mão das realizações profissionais — a continuação parece menos otimista ao sugerir que esse equilíbrio talvez não exista, ao menos não da forma como imaginávamos.
Em mais uma conversa franca no banco de trás de uma limusine, Miranda fala sobre o que lhe custou ser Miranda Priestly: o mais caro, sem dúvidas, foi não participar menos da vida das filhas. Ainda assim, ela admite, com os olhos marejados, que ama trabalhar. Que não seria capaz de abrir mão da própria ambição. Que gostaria de viver num mundo em que fosse possível ter as duas coisas ao mesmo tempo.
Basicamente, tudo seria diferente se ela fosse homem.
“Ser mulher é impossível”
Trabalhe como se não tivesse filhos. Planeje filhos como se sua carreira pudesse esperar. Seja ambiciosa, mas não demais. Queira ser mãe acima de todas as coisas. Construa estabilidade, mas não deixe o tempo passar. As comédias românticas dos anos 2000, de alguma forma, estavam pedindo tudo isso da audiência.
Anos depois, Barbie, outro blockbuster de apelo nostálgico, resumiria tudo isso dizendo que ser mulher é impossível. Não porque seja literalmente impossível existir como mulher, mas porque, para a maior parte das pessoas, é impossível encaixar todos os caminhos que nos ensinaram que eram corretos dentro de uma vida só. Mesmo a mais aplicada e comprometida das mulheres eventualmente vai descobrir que não dá para ganhar esse jogo sem arranhões, sem deixar algumas coisas pelo caminho. O Diabo Veste Prada 2 tenta — com todas as limitações que um filme desse gênero, feito em Hollywood, permite — ilustrar isso.
Vocês provavelmente já leram muitas opiniões e teorias sobre esse filme nas últimas semanas. Eu mesma li várias, mas senti falta de uma leitura que olhasse para a história a partir da fertilidade. Porque saber que Andy Sachs congelou óvulos não nos dá respostas fáceis para o futuro, nem significa que ainda podemos acreditar naquela promessa antiga de que é possível ter tudo.
Os óvulos congelados não devem ser lidos como mais um item aspiracional para aquela Andy que atravessa Nova York usando botas de salto. O papel deles é em reconhecer algo que boa parte de nós já sabe: que a vida adulta é mais difícil, mais contraditória e menos organizada do que as histórias que assistimos na adolescência prometiam.
Saber que Andy Sachs congelou óvulos não resolve nossos problemas, mas tira a personagem de um lugar ideal para transformá-la, novamente, numa espécie de companhia. Mesmo esse espelho na sua versão mais brilhante e otimista que Anne Hathaway consegue oferecer tem rachaduras. Um espelho que nos mostra mulheres tentando lidar com tempos que não andam juntos: o do corpo, o do trabalho, o do desejo, o dos encontros, o das certezas, o da igualdade.
E, entre todos eles, seguimos tentando construir algo que nunca esteve garantido – nem para nós, nem para as mocinhas: o espaço para existir inteiras.






