A escolha de não ser mãe: “Lido bem com a ideia de maternidade, só não quero fazer parte dela”

Aos 13 anos eu já sabia que não queria ter filhos. Na verdade, resgatando aqui algumas memórias, já sabia que não queria gestar muito antes de sair do berço e começar a dormir em uma cama.

Sempre fui uma criança muito curiosa, aos 4 a 5 anos eu já sabia como os bebês nasciam — apesar de ainda não entender como eles iam parar na barriga das mães. Quando comecei a refletir sobre o assunto na adolescência, achei que poderia ter absorvido algum tipo de medo sobre o processo da gestação e parto e, por isso, poderia ter desenvolvido um bloqueio ou rejeição em relação ao tema, mas não era bem isso.

Eu gostava de ver os bebês nos carrinhos de passeio, nos meus quadrinhos de infância junto da coleção do “Amar é”. Sempre me emocionava em filmes como “Olha quem está falando” e “Junior”. Eu lidava bem com a ideia da maternidade, só não queria fazer parte dela.

Quando brincava de boneca ou de casinha, minhas bonecas eram sempre mulheres empoderadas, ocupadas com seus trabalhos e suas vidas sociais com outras Barbies e Susies — elas nunca eram mães. Elas resolviam problemas complexos, organizavam jantares com amigas e amigos, flertavam e até cuidavam de outras crianças, mas nunca tinham os próprios filhos.

Sou estranha por não querer ser mãe?

Claro que me sentia estranha com com a ideia de não ser mãe. Já cheguei a pensar muitas vezes: será que o afastamento da vontade de ter filhos poderia ser resultado de uma infância em que eu mais cuidei do que fui cuidada? Seria por que tive que ser independente e autossuficiente antes da hora?

Talvez, viver em uma realidade em que a maternidade e a concepção sempre foram motivos de vergonha e frustração, gerando mais distanciamento do que lindos cenários de aproximação que um bebê pode proporcionar, minou o suposto propósito biológico da gestação dentro de mim.

Não sei. Também não me importa encontrar uma explicação pra isso.

Cresci, amadureci e percebi que não querer ter filhos, para mim, nunca foi uma decisão. Eu diria que foi — e ainda é — um sentimento. Assim como muitas mulheres sentem desde jovens aquele forte ímpeto de ter filhos um dia — e muitas realmente nasceram para isso — eu sentia o mesmo, só que em relação a NÃO tê-los.

E, sim, já fui muito questionada sobre os “porquês” e “comos” desse sentimento.

Quando for adulta você vai mudar de ideia

Ainda lembro da primeira vez que falei sobre não querer ter filhos para outras mulheres — já adultas e mães — e de como suas expressões transmitiam espanto, incredulidade e até um pouco de raiva a respeito da minha decisão, como se não existisse outra opção além da maternidade.

Como se essa escolha fosse um caminho proibido e, principalmente, como se nenhuma mulher tivesse o direito de escolhê-lo, já que elas o recusaram.

Ano após ano eu ouvia todo tipo de comentário quando falava abertamente sobre não querer ter filhos:

  • “Você é muito jovem agora, quando você for adulta vai mudar de ideia”
  • “Seu instinto materno ainda não floresceu, depois dos 20 anos você vai querer ter filhos”
  • “Você fala isso agora, espera quando você casar…”

Bom, meus vinte anos anos passaram e a vontade de ter filhos não floresceu. Os trinta vieram e ser mãe não chegou nem no meu TOP 100 de coisas pra fazer. Já me casei e isso só me fez reafirmar que, definitivamente, não terei filhos. Sempre invicta na minha posição antimaternalista.

Para ser justa, houve um momento em que me senti abalada e repensei muito meu sentimento em relação à maternidade: aos 35 anos, fui diagnosticada com câncer de mama triplo positivo em estágio inicial.

Ser ou não ser mãe: a cartada final

O primeiro golpe veio com o diagnóstico e todo medo por trás do que poderia acontecer. O segundo, foi saber que a gravidez representa um imenso risco de reincidência desse tipo de tumor (que pode voltar ainda mais agressivo), já que ele é sensível aos hormônios e a gestação é uma bomba hormonal.

O terceiro golpe veio com o tratamento: tanto a quimioterapia quanto a radioterapia, além do remédio para controle hormonal, impactam diretamente minha fertilidade. Não à toa, é comum que mulheres com desejo reprodutivo congelem óvulos antes de um tratamento como esse.

Fiquei abalada como a Robin Scherbatsky de “How i met your mother”: uma coisa é você poder escolher não ter filhos, mas ter esse caminho em aberto caso mude de ideia; outra bem diferente é não poder escolher se você vai ter filhos ou não. Por mais que o resultado seja o mesmo, ter autonomia para tomar uma decisão é muito diferente de saber que aquela porta está fechada para você.

Eu não tinha planos de ser mãe e continuei assim depois do meu tratamento. Segui — e sigo —firme com o compromisso de cuidar de mim primeiro, sem me culpar por não seguir o caminho que todas as mulheres ao meu redor esperavam que eu seguisse. Sigo confiante de que a maternidade é sinônimo de felicidade para algumas pessoas, mas não para mim.

Descobri que existem muitas formas de ser Mãe — talvez não em sua plenitude, mas um pouquinho em diferentes contextos. E isso me basta.

Sobre a autora:

Glau tem 37 anos. Taurina. Colecionadora de viagens e mãe de 6 gatos. Voluntária em ações a favor dos animais. Formada em design e marketing, atua há mais de 10 anos na área. Criadora do podcast Além do Câncer – onde retrata sua experiência pessoal sobre a descoberta e tratamento do câncer de mama.

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