Quando olho para trás e vejo toda minha ancestralidade feminina, percebo que sou a primeira geração da minha família que teve o poder da escolha.
Minha bisavó indígena não pôde escolher se seria catequizada ou não. Tenho certeza que minhas avós não teriam escolhido se casar ainda menores de idade, ou ter mais de 15 filhos ou, ainda, ser mãe solo, como aconteceu. Minha mãe tinha sonhos individuais que não pôde seguir. Mas eu não. Eu tive o privilégio de escolher.
E, entre muitas escolhas, escolhi também a maternidade.
Digo “também” porque ser mãe faz parte de mim, mas não me define por completo. É meu maior papel e já foi meu maior sonho, mas também sou designer, ex-dançarina, umbandista, uma mulher com desejos, novos sonhos e vontades que vão além. E não amo menos minha filha por isso, pelo contrário!
Quero ser uma mulher plural e realizada com toda minha potência, como um exemplo para ela e para todas que ousarem escolher também.
A maternidade me fez honrar minhas origens com ainda mais orgulho e entender que todo caminho tem um pouco de coisas boas e um pouco de coisas ruins. Faz parte da vida. Me deu também uma nova coragem: a de retirar o peso da culpa das minhas ambições. Com esse rebuliço hormonal que tem sido o puerpério, minha vontade em seguir trabalhando em uma empresa para mulheres e criando uma menina é uma forma de ser adubo.
É um legado para que todas que cruzem meu caminho se inspirem a plantar suas escolhas com força, acolhimento e expansão, sem precisar repetir os silêncios que marcaram tantas outras da nossa história.
Talvez, no fundo, seja essa a verdadeira revolução: querer e ter o direito (e a coragem) de escolher; existir com ousadia; ser feliz e seguir abrindo portas.
Sendo ou não mães, somos todas filhas. Nossas escolhas são um ato de liberdade e, ao mesmo tempo, compromisso com quem fomos, com quem somos e com quem virá.
Sobre a autora
Lívia Melandre é mãe da Helena e trabalha como designer na Oya Care.






