A estrutura de um casal é muito semelhante à de uma nação. Brigitte Vasallo desenvolve essa ideia com maestria no seu livro “O Desafio Poliamoroso”; grosso modo, o que existe em comum entre a construção de um casal e de uma nação é o sentimento de identidade, pertencimento, marcados por uma certa mística de predestinação que caracteriza tanto o patriotismo quanto o amor romântico. Ambos são constituídos por elementos como fusão, sacrifício, onipotência e inevitabilidade.
Casais e nações também se valem da clássica estratégia de constituição de fronteiras que delimitam um dentro e um fora, um “nós” e um “eles”. Permitir que toda a agressividade seja destinada ao lado de fora é o que garante a coesão e circulação dos sentimentos de apego, afeição e cuidado entre os membros do casal ou nação.
Esse paralelo entre estrutura de nações e casais nos ajuda a entender como vivemos o amor romântico na nossa cultura e por que os rompimentos costumam ser tão desafiadores. A decisão de terminar um relacionamento é uma dessas que costuma ser profundamente difícil de tomar — até mesmo quando os motivos são cristalinos e não deixam tanto espaço para a dúvida. Alguém pode ter certeza que deve terminar e ainda assim enrolar meses, ou até anos, para fazê-lo.
O que torna as separações tão sofridas?
O fim de uma relação carrega consigo uma avalanche de lutos simultâneos que pode ser arrasadora. Afinal, o que mais acaba quando um casal termina?
Nos despedimos não só dos nossos amados, mas de todo um modo de vida partilhado. Uma linguagem própria, desenvolvida a quatro mãos, passa a se tornar uma espécie de língua morta. Precisamos aposentar planos futuros e sonhos que nunca saíram do papel, mas que preenchiam e davam sentido ao presente.
Abrimos mão do lugar de prestígio que ocupávamos no desejo e na vida do outro — o que é especialmente penoso em um mundo que, de tantas formas, nos faz sentir pouco especiais e desimportantes. Ser prioridade na vida de alguém funciona, na nossa cultura, como uma das principais defesas contra esse sentimento. Corremos para o amor romântico para nos sentirmos valiosos, o que torna nada simples a tarefa de renunciar a esse lugar.
Nos despedimos, ainda, de uma versão de nós mesmos: aquela que só fazia sentido na dinâmica daquela relação. De uma imagem de nós que só existe — com certas nuances, cores e contornos específicos — no olhar desse outro. De repente, toda a rotina compartilhada precisa ficar para trás, produzindo mudanças muito tangíveis no dia a dia. Não à toa tantos recém-terminados lamentam: “tudo me lembra você”.
Os rastros de uma vida vivida a dois ficam espalhados por toda parte, escancarando o vazio que costuma tomar o lugar de tudo que antes estava ali. As perdas não são poucas. Os lutos a serem elaborados não caberiam neste texto. Enfrentar faltas e vulnerabilidades de maneira tão radical é especialmente desafiador em uma cultura que não nos oferece muitos recursos para lidar com subtrações.
Somos ensinados a almejar e performar potência, sucesso, completude, força, independência, felicidade. Esses imperativos culturais aprofundam o sofrimento e a sensação de desamparo quando perdemos o amor romântico — esse amor que nos é oferecido como o principal recurso para enfrentar as dificuldades de um mundo hostil.
Se tudo é tão difícil, o que leva, então, as pessoas ao término?
As respostas para essa pergunta também são das mais variadas. Na tentativa de buscar um denominador comum entre elas, arriscaria dizer que as pessoas terminam porque algo cai. Algo não se sustenta. Algo acaba. E esse algo não é, necessariamente, o amor. Para definir melhor esse “algo”, vale voltar ao paralelo entre casais e nações.
Outro ponto crucial em comum é a existência de um “mito fundador”, que dá origem ao identitarismo, ao amor e ao pertencimento. No caso do casal, é comum que esse mito originário seja inconsciente — não sabemos exatamente o que nos capturou no outro, mas, a partir daquele encontro, construímos uma série de fantasias complexas sobre quem é esse outro, por que ele parece tão perfeito para nós e tudo o que a relação poderia vir a ser.
Com frequência, o que cai na separação é justamente essa fantasia fundadora.
Às vezes nos deparamos com elementos de realidade e alteridade que não combinam com aquilo que projetamos; outras vezes, as pessoas e a relação se transformam de tal maneira que o encaixe, outrora tão evidente, simplesmente deixa de fazer sentido.
Se a fantasia originária é como a coluna vertebral que sustenta o casal, torna-se muito difícil seguir quando ela se enfraquece. Se os sentidos originais para estar junto se esvaziam — e não é possível renová-los —, vai ficando cada vez mais claro o que custa estar com o outro, até o momento em que já não há condição ou disposição para arcar com esses custos.
Às vezes percebemos que precisamos justamente daquilo de que estamos abrindo mão para conseguir permanecer naquela relação.
Como seguir em frente após um término?
Se casais são como nações, terminar é uma despedida múltipla: do outro, de uma versão de si, e de todo um país construído em parceria.
Como o amor romântico ocupa um lugar tão central e organizador na nossa identidade, crises existenciais costumam acompanhar os processos de separação. Crises são dolorosas, mas também funcionam como motor de transformação e de invenção de novas possibilidades subjetivas.
Finalizo com algumas perguntas que podem inspirar elaborações nesses momentos tão sensíveis, complexos e delicados: o que me uniu e ainda me une a esse outro? Quero estar em um relacionamento em abstrato ou me relacionar especificamente com essa pessoa? O que me custa para estar com ela? Consigo dar conta desses custos?
Pensando na vida que criamos juntos, o que eu quero que continue comigo? O que eu quero que vá embora?
Sobre a autora
Mariana Ribeiro é psicanalista e mestre em psicologia clínica pela USP, pesquisando sobre amor e ciúmes.






