Planos? Desculpe, não posso. Tenho endometriose.

Em fevereiro, me mudei para um apartamento só meu. Eu estava animada com a novidade, mas ciente de que precisaria de bastante organização financeira para conseguir fazer essa transição. Sabia dos gastos: pintura, multas da entrega do apartamento antigo, novos móveis e eletrodomésticos.

Fiz um planejamento completo no Excel, tava bonito de se ver. Item por item, com tags para classificar tudo. Estava até linkado com um roadmap da mudança que fiz no Notion.

Mas a ansiedade que veio com esse processo gerou muito estresse no meu corpo e a dor na lombar voltou. Com ela, cólicas, choradeira, escapes e sangramentos mais significativos.

Você já viu minha conta na farmácia durante uma crise da endometriose?

Pois bem, deixa eu te contar: não existe planejamento no mundo que sobreviva às minhas idas à Drogasil.

O custo financeiro da endometriose

Planejamento financeiro é um desses temas sobre os quais inevitavelmente todo grupo de amigos com seus 20 e muitos ou 30 e poucos anos acaba conversando. Sempre tem uma certa preocupação envolvida e, mesmo quando não é essa a intenção, existe um sentimento de julgamento pairando no ar.

Minha “reserva saúde” é constantemente drenada. Minha reserva de emergência foi totalmente usada no ano passado, para tratar a endometriose e colocar meu DIU Mirena.

“Tudo bem”, eles dizem. “Isso é claramente uma emergência.”

Mas é como dizem por aí: às vezes, a única pessoa que está te julgando é você.

E talvez seja por eu ter muito Virgem no mapa, ou por ter tido uma mãe firme, ou por ter sido uma menina obstinada durante toda a minha vida. Tem coisas difíceis de explicar e fáceis de sentir. Eu me sinto uma inútil por não conseguir guardar dinheiro. Por não conseguir criar uma rotina. Por não dar meu 100% no trabalho. Por não treinar como já treinei. Por ter engordado tanto. Até mesmo por não ter um relacionamento romântico.

“As demandas do meu corpo falam mais alto”

Um certo descontrole parece ter se espalhado por todas as áreas da minha vida.

Isso vem de antes do diagnóstico de endometriose, quando as crises eram um grande mistério para mim. Também existe a sensação de que dar o meu melhor deixou de ser suficiente. Vivo correndo atrás de uma perfeição que, na prática, é inalcançável.

Com o dinheiro, já tentei me organizar de muitas formas diferentes: planilhas, aplicativos, conselhos dos meus pais, de amigos, colegas de trabalho, influenciadores e até de uma consultora financeira profissional.

Pena que as demandas do meu corpo falam mais alto.

Tem o que é fácil de imaginar: medicamentos, consultas, exames. E tem todo o resto. Aulas de natação, academia, alimentação limpa, terapia semanal, consultas mensais com a psiquiatra e com a nutricionista especializada em saúde hormonal.

Sentir dor por tanto tempo me colocou dentro de uma rede complexa de profissionais extremamente competentes. Cada um com suas recomendações.

Tomar vitaminas. Repor ferro. Tomar remédio para depressão e para dormir. Fazer exercício de baixo impacto. Fazer musculação. Comer saudável. Fazer drenagem linfática regularmente. Medicar quando necessário. Acompanhar a evolução da endometriose e a posição do DIU.

Tenho uma reserva para tudo isso no banco e, sinceramente, não faço ideia do que mais poderia fazer para manter algum controle sobre o meu dinheiro.

“Tem dias em que meu corpo simplesmente não negocia comigo”

Nesse processo todo, também perdi muito da minha rotina e da minha capacidade de sustentar uma vida minimamente organizada. Alimentação, sono, lazer, condicionamento físico, limpeza da casa, relacionamentos.

Como vou querer acordar cedo quando passei a noite chorando de tanta cólica?

Ir treinar todo dia?

Experimentar novos esportes?

Cozinhar para a semana?

Como vou sair com um carinha novo quando me sinto cansada, desconfortável no meu corpo e sem a menor vontade de transar porque pode doer? Porque talvez eu precise explicar, pedir paciência, mudar de ideia?

Nos dias de dor até as coisas mais bobas ficam difíceis de fazer com consistência.

Tirar o lixo.

Limpar a caixa de areia da minha gata.

Lavar a louça.

Escovar os dentes.

Tomar banho.

Tem dias em que meu corpo simplesmente não negocia comigo.

É da cama para o sofá. Do sofá para a cama.

“Viver com endometriose é viver no modo hard”

Para piorar, muito do tratamento exige uma disciplina que a própria doença dificulta. Eu não quero evitar glúten. Quando estou bem, eu quero tomar uma Original 600ml com meus amigos, comer pastel, bolinho de boteco.

E quando estou mal, não quero cozinhar. Não quero comer “limpo”.

Isso não vale só para a alimentação. Vale para a rotina de exercícios, para o sono, para a administração do estresse.

Às vezes parece que viver com endometriose é viver no modo hard.

Esses dias estava tentando explicar para o professor da academia que eu nunca tive problemas para me exercitar. Sempre gostei. Já fiz um pouco de tudo: natação, luta, yoga, circo, corrida, spinning, crossfit.

Quando era mais nova me exercitava todos os dias da semana. Caminhava muito. Era ativa e tinha uma disposição invejável.

Nos últimos meses vi meu corpo inchar, minha força física diminuir e senti uma culpa enorme por não conseguir fazer mais — ou melhor.

Eu, que nunca fui magra mas sempre fui forte, me sinto fraca, desajeitada. O treino virou remédio, deixou de ser divertido. Faço porque preciso, não porque quero.

No trabalho, as coisas fluem um pouco melhor, apesar da endometriose e do meu útero temperamental. Tenho a sorte de trabalhar com tecnologia, com poucos dias presenciais. É especialmente mais fácil agora que uso o DIU e não tenho mais menstruações assustadoras que mancham a calça jeans mesmo com o combo coletor + calcinha menstrual.

A gente se acostuma a trabalhar com dor. Faz uma careta ou outra e segue o baile.

As dores do ser mulher não são muito bem-vistas no mundo corporativo (ainda mais em meio a um monte de homens da área de tecnologia), então é mais fácil esconder o desconforto e trabalhar ao redor dele. Claro, às vezes me pego pensando: será que se eu não estivesse me sentindo mal naquele dia minha apresentação teria sido melhor? Se eu não tivesse faltado naquele Happy Hour, eu teria sido promovida?

O custo emocional da endometriose

Em meio a tudo isso, parece que a gente vai perdendo um pouco de si mesma.

Eu definitivamente não sou a mesma pessoa que era antes da dor crônica.

Nesse processo perdi amigos e desapontei pessoas. Deixei de ser a amiga pau para toda obra. 25 de março às vésperas do carnaval? Vamos. Balada? Vamos. Restaurante caro? Vamos. Treino, parque de diversões, museu, trilha, cachoeira, praia, aula de dança, viagens, desabafos, conselhos…

Muito disso foi substituído por cancelamentos em cima da hora e convites para ficar em casa.

Também parei de tentar conhecer gente nova e sinto que o romance virou uma área da minha vida que passei a priorizar muito menos.

Eu, tão romântica, prefiro não me arriscar mais. Tenho medo de me abrir de novo para alguém. Explicar onde dói. Explicar minhas inconstâncias e meus humores.

Para, no final, quebrar a cara?

Existe toda uma versão de mim que simplesmente não existe mais por causa da dor.

O diagnóstico de endometriose ainda faz diferença

Aqui no blog da Oya eu li que a endometriose é um diagnóstico que muda tudo, mas ao mesmo tempo não muda nada.

Receber o diagnóstico me ajudou em muitos aspectos. Explicou a dor. Explicou meus gastos absurdos com absorventes descartáveis, calcinhas menstruais e analgésicos. Me incentivou a colocar o DIU e encontrar formas melhores de administrar meus sintomas — ginecológicos, mas também psicológicos e psiquiátricos.

Amadureci muito nesse processo. Finalmente comecei a entender melhor meus limites.

Ao perder alguns relacionamentos — alguns de forma brusca, outros de forma lenta e gradual — entendi que algumas pessoas simplesmente não estão dispostas a oferecer o que eu preciso.

Esse é um outro tipo de dor. Mas vamos ser sinceras? Quem precisa de inimigos com amigos assim?

Sei que os amigos que seguraram minha mão nesse processo me amam de verdade. Esse amor é grande e recíproco e espero que saibam disso.

Quando se convive com dor crônica, se convive com problemas de energia, disponibilidade, humor. No meu caso, um pouquinho de depressão e ansiedade também. Todo mundo mora junto e misturado aqui na minha cabecinha.

Eu comecei a escutar mais meu corpo. Acontece que ele é meio chato.

Mas espero aprender a amá-lo mesmo assim.

Sobre a autora

Mari Cestari trabalha com Design de Produto, mas gosta mesmo é de ler, passar o dia na piscina e tomar sorvete. Romântica incorrigível, anfitriã por vocação e tagarela de nascença, liga todo dia para a sua mãe bióloga, que a ensina muito sobre o corpo humano, os avanços da ciência em relação à saúde feminina e fofocas acadêmicas. Divide o apartamento com a Merengue, uma gata que não pediu nada disso.

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