“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
– Fernando Pessoa
O poema acima sempre foi uma das minhas maiores influências. Desde que me entendo por gente, reflito sobre o mundo ao meu redor e o meu mundo interior. Fui aquela criança curiosa que perguntava sobre tudo, lia Super Interessante, e qualquer coisa que caísse em minhas mãos, sempre buscando entender mais.
Também sempre fui impaciente. Aceitar “a vida como ela é” nunca fez parte do meu perfil. O poema de Fernando Pessoa não só expressa a intensidade da minha natureza, mas também me deu permissão para ser eu mesma – completamente – em qualquer coisa que escolhesse fazer.
Agora, o que fazer com tanta energia? Para onde direcioná-la? Levei 30 anos para encontrar essa resposta.
Escolher empreender
Quando penso sobre a escolha de me tornar empreendedora, percebo que foi mais do que uma decisão prática – foi um processo de autoconhecimento. Precisei entender quem eu sou, o que me motiva e o que me traz felicidade, desde sempre. Tive que reconhecer minha própria natureza, com todas as suas nuances, as boas e as mais desafiadoras.
Na faculdade de Administração de Empresas, já suspeitava que tinha vocação para começar um negócio. Eu tinha uma planilha com ideias de empresas que não só tinham potencial de retorno financeiro, mas que também me trariam prazer em construir.
Antes de empreender, trabalhei em diversos lugares, conhecendo pessoas, perspectivas e idiomas diferentes. Mas nunca me senti pertencente. Observava mulheres em posições superiores e, apesar de admirá-las, não me via nelas. Não queria ser como elas. Sabia que minha jornada seria diferente, mas demoraria anos até descobrir qual seria meu verdadeiro caminho.
Empreender em saúde feminina
Levou uma década até eu encontrar coragem para desapegar dos padrões profissionais esperados de mim e descobrir a combinação perfeita: empreender em saúde feminina. Esse tema falava comigo de uma forma que nunca havia sentido antes, com nenhum outro tema.
Minha família é predominantemente feminina. Somos três irmãs, e fui criada principalmente por minha mãe e avós. Ao longo dos anos, observei mulheres incríveis ao meu redor – lutando e trabalhando com classe, sem perder seus valores. Essa resiliência sempre me inspirou, mas também me trouxe uma sensação desconfortável de pena.
Era doloroso ver o mundo ser tão cruel com elas. E se eu pudesse mudar isso?
Além de observá-las, também vivi na pele experiências que abalaram minha autoestima e confiança em minha capacidade de liderar. Situações que deixaram marcas profundas, lembrando-me das barreiras que mulheres enfrentam diariamente, seja em suas carreiras ou em seus corpos.

Quando fiz 30 anos, tudo se alinhou para eu tomar a decisão de empreender em saúde feminina. Eu trabalhava no mercado financeiro, entre Nova York e Londres. Enquanto meu lado aventureiro amava essa vida, meu corpo feminino reclamava. Sofri com candidíase de repetição por anos e comecei a sentir a pressão do famoso relógio biológico, mesmo sem querer filhos naquele momento.
Eu estava frustrada porque mesmo com acesso aos melhores serviços de saúde do mundo, não sentia que minhas necessidades estavam sendo verdadeiramente atendidas.
Ao mesmo tempo, surgia uma nova discussão sobre padrões de saúde – sempre masculinos – impostos aos corpos femininos. Descobrir essa lacuna na sociedade provocou muitas mulheres a repensarem suas escolhas, e novas oportunidades de mercado começaram a surgir. Mulheres queriam uma nova abordagem, um cuidado que as considerasse por inteiro, e assim nasceram as primeiras femtechs.
Foi também nessa época que li O Momento de Voar, de Melinda Gates. Esse livro mudou minha visão sobre o que é possível no mundo: guiada pela crença de que todas as vidas têm o mesmo valor, Melinda me mostrou que a autonomia feminina, especialmente em relação à saúde reprodutiva, é essencial para transformar sociedades. Esse pensamento ressoou profundamente em mim.
Se fortalecer as mulheres significa fortalecer a sociedade, como eu poderia não contribuir?
Empreender em saúde feminina no Brasil
A decisão seguinte foi a respeito de onde começar a empreender. Voltei para o Brasil porque percebi que havia poucas soluções de saúde realmente pensadas por e para mulheres por aqui. Apesar de ser um país com uma população jovem e altamente conectada, o acesso aos cuidados ginecológicos e de fertilidade de qualidade ainda era limitado e muitas vezes elitizado.
O impacto desse descaso na vida de tantas mulheres era visível. Eu sabia que podia fazer a diferença.
Empreender no Brasil também me dá a chance de ser uma peça positiva na evolução social do país. Se tudo der certo, não teria honra maior do que, um dia, contar aos meus netos que ajudei a construir um Brasil melhor com meu trabalho e minha criatividade. Pode até ser uma mudança pequena, mas cada avanço, por menor que seja, contribui para uma transformação maior.
Os desafios da vida de empreendedora
É claro que empreender não veio sem desafios.
No início, muitos investidores duvidavam da relevância da saúde feminina como uma prioridade de mercado. Para eles, era apenas um nicho pequeno. Mas eu sabia que o impacto era muito maior. Lembro de uma paciente que, após uma consulta, me disse: “Você não está apenas cuidando da minha saúde, está me devolvendo a confiança de que posso ser mãe um dia.”
Esse foi o momento em que percebi que o que fazemos na Oya Care vai muito além de consultas médicas: estamos transformando vidas, empoderando mulheres a se reconectarem com seus corpos e seus sonhos.
Se temos apenas uma vida, quero que a minha valha a pena. Escolho viver intensamente, com apetite por risco em vários aspectos. Escolho acreditar que todos podemos trabalhar, enquanto estivermos vivos e produtivos, para deixar o mundo um pouco melhor. Minha jornada apenas começou, mas espero que, ao criar a Oya Care, eu inspire mais mulheres a não apenas cuidarem da sua saúde, mas também a ousarem criar o futuro que desejam.
Porque, no fim, somos todos responsáveis por construir um mundo mais justo.
Sobre a autora
Ste Von Staa é founder e CEO da Oya Care. Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.







