Produção independente: “Alterei a ordem dos fatores porque não podia mais esperar”

Quando conto para as pessoas que escolhi ser mãe solo, automaticamente elas fazem uma correlação com um sonho cor de rosa que eu deveria ter desde menina, o de ser mãe. E quando respondo que não foi bem assim, elas ficam relativamente surpresas. A verdade é que ser mãe solo nunca havia passado pela minha cabeça.

Desde nova, a minha conexão com a maternidade sempre foi mais emocional do que racional. Eu nunca fui aquela pessoa que dizia não estar pronta emocionalmente ou financeiramente para ter filhos (mesmo não estando, rs). Eu simplesmente dizia que, se eu engravidasse, acolheria.

A decisão veio quando eu já estava com quase 38 anos e a minha vida amorosa não estava fluindo. Um dia, conversando com meu irmão e minha irmã, comentei que achava que não iria me casar e que, por isso, provavelmente não teria filhos. Eu estava de boa com isso. Na mesma hora, meu irmão ficou indignado e me incentivou a fazer uma consulta para entender mais sobre congelamento de óvulos —afinal, vai que eu conhecesse um homem legal com uns 40 e poucos anos e quisesse ter filhos com ele.

Confesso que congelamento de óvulos sempre pareceu algo fora da minha realidade, talvez pela modernidade que aquilo representava ou pelo alto custo. Não parecia algo para mim e nunca havia procurado me informar sobre isso. Mas, naquela ocasião, agendei uma consulta.

“Em quinze dias, decidi que era isso que eu queria fazer”

Na conversa com o médico, quando entendi melhor os prós e contras do congelamento — uma segurança, mas não necessariamente uma garantia de uma gravidez futura —, o investimento e a idade que eu já tinha, acabamos falando sobre a possibilidade da maternidade solo por fertilização in vitro.

De repente, o fato de eu poder ser mãe sem estar em uma relação amorosa virou uma chave na minha cabeça. Em quinze dias, decidi que era isso que eu queria fazer.

Quando comecei minha jornada de produção independente, na minha cabeça era óbvio que eu iria engravidar ao colocar um embrião prontinho dentro do meu útero — afinal, a gente passa a vida inteira com medo de engravidar sem querer. Mas não foi bem assim.

(Aqui toca a trilha sonora: “entrei de gaiato no navio, oh…”).

Por nunca ter procurado entender mais sobre minha fertilidade, quase perdi meu poder de escolha: já estava quase em falência ovariana sem saber. Ao longo de quase três anos, tive três perdas gestacionais e uma gravidez química, cada uma diferente da outra. Comecei a brincar que já poderia pedir gol no Fantástico.

Mas deu tudo certo. Hoje sou mãe de dois meninos lindos e muito alegres, gêmeos.

“Alterei a ordem dos fatores porque não podia mais esperar”

Até hoje, muitas pessoas me perguntam: mas você desistiu do amor? E eu respondo que não. Brinco que apenas alterei a ordem dos fatores porque eu não podia mais esperar.

Somente agora, dois anos depois que meus filhos nasceram, tive uma espécie de epifania em relação a isso. Apesar de gostar de viajar e conhecer lugares novos, sempre fui mais caseira e mais diurna. Era, e sou até hoje, a primeira a ir embora de baladas e festas. Sempre preferi esportes, cinema, casa de amigos e bons restaurantes. Então, ir a lugares mais óbvios para conhecer alguém ou entrar em aplicativos de namoro era algo que eu fazia a contragosto.

Eram lugares nos quais eu não queria estar, mas que, ao mesmo tempo, carregavam um peso enorme de que, talvez, ali, minha vida finalmente fosse se desenrolar: amor, casamento, filhos, família. Cada vez que eu chegava em casa e nada tinha mudado, batia uma frustração enorme por depender de algo que eu nem queria ter feito para começo de conversa.

Era uma cobrança eterna que eu tinha comigo mesma: não quero ir, mas preciso ir.

Hoje eu digo que os meus filhos me curaram de algum modo.

“Se desapegue daquilo que você imagina que deveria ser”

Meus filhos são o meu guia moral para a vida. Jamais farei algo que possa deixá-los com vergonha de mim. Ou seja, quando percebo qualquer sinal de baixa autoestima ou de desvalorização comigo mesma em algo que pretendo fazer, até uma simples mensagem de texto, eu não faço.

Hoje sou muito mais leve, completa e livre para receber o amor do jeito que ele vier, na hora que ele vier. Foi assim que a minha vida se desenrolou, e eu não poderia estar mais feliz.

Então, o que costumo dizer para outras mulheres que possam estar em uma situação parecida é: se desapegue daquilo que você imagina que deveria ser, para poder fazer o melhor daquilo que é.

Se eu puder resumir tudo isso, resumo numa única frase que se tornou um mantra para mim: FOI POR AMOR.

Escolha escolher.

Sobre a autora

Tayana Anieri é executiva de marketing e comunicação, criadora do canal Mãe Lado B, onde conta sua experiência como mãe solo de gêmeos por FIV aos 40 anos.

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