Meu primeiro contato com a endometriose aconteceu durante a faculdade de medicina, quando me dediquei a uma iniciação científica sobre o tema. Pesquisamos a imunologia da doença, uma área complexa que envolve a interação entre fatores hormonais e inflamatórios.
Na época, eu me sentia fascinada pelo assunto e tinha um profundo desejo de aprender, me aprofundar e contribuir para o avanço da ciência. Hoje este artigo está publicado na Revista CLINICS.
Primeiro o trabalho, depois do corpo
Assim como nesse estudo, sempre coloquei minha carreira como prioridade máxima. Conquistei todos os meus sonhos profissionais na área da Dermatologia.
No entanto, enquanto alcançava esses marcos, meu corpo tentava chamar minha atenção. Desde a adolescência, eu sentia cólicas, mas nunca deixei que isso me impedisse de ser produtiva. Após o internato, quando comecei a fazer plantões, percebi que as cólicas eram diferentes: o cansaço era maior, e a dor parecia mais intensa.
Às vezes, tinha a sensação de que estava forçando meu corpo além dos seus limites, mas ainda assim ignorava os sinais. Afinal, eu tinha objetivos claros e não queria parar.
Eu ignorei os sintomas, ignorei os avisos.
O corpo fala – mas será que nós ouvimos?
Em 2024, decidi que era hora de escutar meu corpo. Comecei a me dedicar a esportes e, finalmente, alcancei um corpo que eu considerava ideal e saudável. Tudo parecia estar indo bem, até que um susto mudou minha perspectiva.
Em uma consulta de rotina, minha ginecologista, Dra. Giulianna Nasi, descobriu um cisto no meu ovário direito. O ultrassom revelou características suspeitas, e a possibilidade de um tumor foi levantada. Foi um momento de medo e incerteza, mas sou imensamente grata por ter sido ela quem encontrou a lesão.
A cada novo exame, ela me ligava, me encorajava e me apoiava de uma forma genuína e profunda. Foi ela quem me lembrou que, mesmo diante da dificuldade, a vida precisava seguir com alegria e leveza.
Foi neste contexto que conheci meu cirurgião Dr. Fernando Nóbrega, ginecologista especializado em Endometriose e Tumores Ginecológicos, um profissional com uma inteligência clínica excepcional e uma empatia rara. Ele analisou minha ressonância magnética, na frente da minha mãe, e levantou a hipótese de um cisto mucinoso, uma lesão benigna.
Fui submetida a uma cirurgia robótica, na qual ele conseguiu remover apenas o cisto e um pequeno foco de endometriose, preservando meu ovário.
Aprendendo a ouvir a língua dos ciclos
Foi na dor que eu cresci. Essa experiência me fez renascer.
Além do desfecho clínico positivo, houve uma melhora significativa nos sintomas que eu nem sabia estarem relacionados à endometriose, como cólicas intensas, inchaço abdominal e fadiga crônica. Esse processo também me fez repensar minhas prioridades.
Percebi que, ao longo da vida, eu não apenas silenciei os sinais do meu corpo, mas também ignorei minha intuição.
Iniciei um processo de autoconhecimento intenso orientada pela minha terapeuta Maria Barreto, que me ensina a ter uma conexão mais profunda com os mistérios dos ciclos e a otimizar isso a meu favor.
“A vida se tornou mais divertida”
Descobri que não somos simplesmente “homens mais fracos”. Somos seres cíclicos, com características únicas que muitas vezes são silenciadas pelas demandas produtivas do mundo moderno.
Aprendi que nossos ciclos não nos atrasam, mas nos conectam com algo maior, como a natureza. Vivenciar essas fases de forma plena — seja na produtividade da fase folicular, seja na introspecção da fase lútea — faz parte do processo de se conhecer, de aprender a pertencer ao próprio corpo e de estabelecer limites saudáveis.
Percebo que certos aspectos da vida não serão guiados apenas pela racionalidade, mas também pela intuição. Não adianta resistir ou brigar; é preciso agir com tolerância e respeito às nossas estações internas.
Essa jornada requer disciplina e constância, e não é linear como escrever um artigo acadêmico, mas é profundamente transformadora e bela.
A vida se tornou mais divertida desde que comecei a me organizar de acordo com meu ciclo, equilibrando fase folicular e fase lútea para extrair o máximo não só das minhas metas profissionais, mas também das minhas experiências mais subjetivas.
Espero que minha história inspire outras mulheres a se conectarem com os mistérios dos ciclos menstruais, reconhecendo que os momentos de descanso e introspecção são tão importantes quanto os de produtividade.
Que possamos honrar esses períodos de pausa, colocando limites e protegendo nossa energia, que é sagrada. Assim como os óvulos desabrocham na fase folicular, nós também podemos florescer em plenitude quando respeitamos nosso corpo e nossa natureza cíclica.
Sobre a autora
Isabella Zurita é dermatologista e faz parte da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.
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