A gente até sabe que vai chegar o momento em que nosso corpo irá apresentar limitações, aceita a perda de algumas habilidades, a chegada de restrições. A gente imagina que isso pode acontecer aos 80 anos, talvez — mas não aos 30, que foi o que aconteceu comigo.
De repente, me transformei em um corpo paralisado pela dor.
Um corpo que antes treinava, que tinha prazer, que me levava para todos os lugares, ficou estagnado por dores lancinantes. Ver meu corpo paralisado pela dor, pela endometriose, com restrições que eu nunca imaginei que teria, foi algo que me transformou profundamente, pessoal e profissionalmente.
Quando a médica vira paciente
Em 2021 tive meu diagnóstico de endometriose. Igual a tantas outras pessoas do sexo feminino, tinha cólicas fortes desde a adolescência, junto com TPM intensa e fadiga extrema. Mas o condicionamento social nos ensina que “sentir dor é normal”, que “é só tomar um remédio que passa”, que “menstruação é assim mesmo”.
Essas crenças também faziam parte de mim e permitiram que eu me acostumasse com a dor, que encarasse o desconforto como algo que eu deveria suportar todos os meses. Era quase uma negligência em relação aos meus próprios sintomas, ainda que eu fosse feminista, ginecologista, e cuidasse de mulheres com endometriose todos os dias.
Apesar de tudo isso, foi necessário que alguém de fora me mostrasse o absurdo instalado: no primeiro dia do ciclo menstrual, eu trabalhava loucamente no computador enquanto tinha na minha frente um cenário de guerra formado por caixas de remédios para dor, uma bolsa de água quente na pelve e outra na lombar, uma cena que se repetia quase todos os meses.
Cirurgia de endometriose: fazer ou não fazer?
Ao receber o diagnóstico de endometriose, me vi diante de um dilema que acompanhou muitas de minhas pacientes: aceitar o bloqueio hormonal (usei a pílula por 10 anos para a contracepção, mas não me adaptei aos efeitos colaterais) ou tentar controlar a dor com analgesia e estilo de vida.
Optei pelo segundo caminho, com melhora parcial dos sintomas, mas minha qualidade de vida ainda estava muito comprometida. Neste momento percebi que talvez precisasse de um recurso a mais para melhorar minha vida: a cirurgia.
Eu, cirurgiã ginecológica, especializada no cuidado da mulher com endometriose, me peguei fugindo desta opção. O sentimento que sempre me rondou quando o assunto era a cirurgia foi o medo.
Medo das complicações (qualquer cirurgia, mesmo que bem realizada, oferece riscos), medo de me afastar do trabalho por muito tempo (quem é profissional liberal sabe que isso conta muito), medo de não dar conta das demandas no pós-operatório e, principalmente, o medo da vulnerabilidade.
Não existe vulnerabilidade maior do que você, inconsciente, permitir que seu corpo seja tocado, quanto mais operado.
O que aprendi com a cirurgia de endometriose
Estar naquele lugar de paciente me deu o primeiro grande insight em relação ao cuidado que ofereço às minhas próprias oyanas: o toque físico antes da anestesia é sagrado.
Não existe sensação de conforto maior do que você, prestes a ser operada, sentir uma mão humana te tocar, ouvir que você pode descansar e que vai ficar tudo bem.
É isso que permite que a gente se entregue: a segurança e o afeto.
Correu tudo bem na cirurgia de endometriose, mas o pós-operatório foi outra (grande) lição de vida. Eu, que sempre fui autossuficiente e independente, demorei para reconhecer que precisava ser cuidada naquele momento.
Achei que tiraria de letra o que viria depois, afinal a minha vida inteira foi assim, encarando os problemas de frente, resolvendo tudo que fosse necessário. A expectativa foi muito (MUITO) diferente da realidade.
As complicações do pós-operatório
Mesmo sendo ginecologista e sabendo o que esperar do ponto de vista técnico, viver a experiência da cirurgia de endometriose na pele é totalmente diferente.
Menstruei por 10 dias (sim, isso pode acontecer) e a dor do procedimento recente associada aos desconfortos da menstruação me desestruturou. Ver meu corpo paralisado por dor, quando eu achei que daria conta de tudo, foi pesado.
Dizem que a dor nos leva a estados meditativos de uma forma ruim, já que quando ela está ali, lancinante, não dá para pensar em nada além disso. Pude comprovar que isso acontece mesmo.
Tive todas as intercorrências possíveis no pós operatório: covid com pneumonia, cisto de ovário pós-menstrual — que surgiu provavelmente por uma desregulação hormonal, o que causou ainda mais dor — dor refratária com necessidade de inúmeros recursos, como fisioterapia pélvica, medicações, acompanhamento multidisciplinar, osteopatia, reposição endovenosa de micronutrientes, acupuntura, dentre tantos outros inconvenientes.
Em meio a isso tudo, precisei (aprender a) ter paciência. MUITA paciência para entender que realmente muito do que planejamos não nos pertence; a vida segue o rumo independente das nossas vontades.
Além disso, o tempo de recuperação do corpo não é, necessariamente, o tempo da nossa pressa para que ele se recupere.
“Passei a fazer exatamente o que eu gostaria que tivessem feito comigo”
Acredito que não foi por acaso que passei por tudo isso. Através da cirurgia de endometriose, pude me reconhecer nas minhas próprias pacientes e melhorar minha forma de acolhê-las, fazendo exatamente o que eu gostaria que tivessem feito comigo.
Pasmem: na maioria das vezes, muito mais que a competência técnica, o que realmente precisamos é de um abraço, de um olhar de acolhimento, alguém que diz que vai ficar tudo bem. O que eu gostaria é que tivessem dito que eu não precisaria ser forte naquele momento, que eu poderia desabar.
Esse espaço de permissão à vulnerabilidade é o que salva vidas. É o que nos fortalece como indivíduos, e como sociedade.
Além disso, ter passado pela cirurgia de endometriose com um pós-operatório delicado me fez conhecer a finitude da vida de uma maneira visceral: a vida termina; as restrições do corpo vão chegar, mais cedo ou mais tarde.
O que mais importa é aprendermos a escolher as pessoas certas para estarem ao nosso lado neste momento, os profissionais que nos acompanham, nossos amigos e família.
Peçam ajuda, isso salva o corpo e a alma.
Termino citando alguns trechos de um dos livros que me acompanhou nesta época de (re)encontro comigo mesma, Entre a Lucidez e a Esperança, de Ana Michele Soares
Eu, que tenho dedicado parte da vida a cuidar de pessoas doentes, ainda que não fisicamente, também estou abrindo espaço para cuidados. A necessidade que sempre tive de ser independente hoje aceita com gratidão cada movimento de amor que oferecem para facilitar minha vida (…) E o que eu desejo é que você sempre tenha alguém para segurar o corpo descartável para você, se um dia precisar. (…) O sofrimento me ensina a contemplar a alegria. Conhecer a dualidade dos sentimentos da vida é um portal rico de compreensão sobre quem somos. O sofrimento existe e não é só meu. E cada pessoa chama de sofrimento aquilo que lhe é mais desafiador. Acredito que uma vida que não experimenta a dor jamais poderá sentir verdadeiramente a potência de existir.
Sobre a autora
Dra. Juliana Sperandio é ginecologista e líder da Equipe Cirúrgica da Oya Care. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.
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