Cerca de 300 cirurgiões ginecológicos ocupavam um auditório em Fortaleza para assistir a uma operação que acontecia a alguns quilômetros dali. Na mesa, uma paciente que já havia passado por uma cirurgia de retirada de miomas anos antes, mas enfrentava o problema novamente. Naquele momento, trinta miomas ocupavam sua cavidade uterina.
No console robótico, a Dra. Juliana Sperandio, líder da equipe cirúrgica da Oya, tinha dois desafios: operar a paciente e, ao mesmo tempo, narrar o que estava fazendo para a plateia que acompanhava o procedimento ao vivo. A cirurgia aconteceu em um hospital da cidade, com uma equipe de filmagem transmitindo as imagens diretamente para o auditório do congresso, onde uma mesa de debatedores trazia perguntas e questionamentos.
“Não é só fazer o passo a passo, tem que explicar o que você está fazendo. É muito rico do ponto de vista de aprendizado, apesar de ser muito tenso.”, explica Sperandio.
Democratizando a cirurgia robótica
A cirurgia ao vivo, prática relativamente comum no meio médico, aconteceu na sexta edição do Salvata Experience, organizado pelo grupo Salvata, pioneiro em cirurgia robótica no Ceará. A proposta é democratizar a plataforma robótica em ginecologia fora dos principais centros de referência do país — ou seja, fora de São Paulo. A organização afirma ter reunido, nessa edição, o maior número de cirurgias robóticas ao vivo já realizadas em um evento na América Latina até então.
O caso operado por Sperandio foi selecionado pela equipe local entre pacientes do SUS, com processo totalmente anonimizado. Embora o sistema robótico esteja disponível na rede pública, a cobertura ainda é limitada, concentrada no sudeste e, até o momento, contempla apenas casos oncológicos ou de endometriose profunda. No caso de uma paciente com miomas, portanto, a alternativa estava fora de questão.
Há hoje cerca de 180 sistemas da Vinci – uma das plataformas robóticas mais utilizadas no país – em operação no Brasil, segundo a Strattner, distribuidora da fabricante no país. Eram cerca de 160 um ano antes. Eles estão distribuídas por 21 estados – contudo, aproximadamente 60, um terço do total, ficam em São Paulo.
Para além da questão geográfica, que reflete a desigualdade de acesso característica de um país tão grande quanto o nosso, a formação de profissionais é outro obstáculo para a ampliação do uso das plataformas robóticas por aqui. Por isso, iniciativas com foco em capacitação, como a promovida pela Salvatore Experience, são tão relevantes.
Por que é desafiador operar miomas
Miomas são tumores benignos que se formam no miométrio, a camada muscular da parede do útero. São relativamente comuns e, em boa parte dos casos, assintomáticos, podendo passar despercebidos ao longo de uma vida inteira.
O que transforma a presença dos miomas em um caso cirúrgico está na intensidade dos sintomas, sendo o sangramento menstrual intenso — a ponto de causar anemia — o mais comum deles. Depois vêm a dor e a sensação de peso na pelve, a compressão da bexiga ou do intestino por miomas volumosos e, em alguns casos, a dificuldade para engravidar ou as perdas gestacionais de repetição, quando o mioma deforma a cavidade uterina.
Antes da cirurgia existem outros caminhos, como o DIU hormonal, medicações para controlar o sangramento e sintomas associados. A cirurgia entra quando esses recursos não são suficientes ou quando o volume dos miomas os inviabiliza.
A partir daí, duas decisões precisam ser tomadas. A primeira é o que se retira: apenas os miomas, preservando o útero, que é a miomectomia, ou o útero inteiro. A segunda é a via de operação. Miomas submucosos, que crescem para dentro da cavidade uterina, podem ser retirados por histeroscopia, procedimento feito pela via vaginal, sem corte nenhum no abdômen. Os demais exigem entrar na cavidade abdominal, o que pode ser feito por cirurgia aberta ou pelas vias minimamente invasivas.
É nessa segunda decisão que a técnica pesa, por um motivo que não é intuitivo: retirar o mioma é a parte mais simples. O trabalho está em planejar o procedimento de maneira adequada, com estratégias para minimizar o sangramento e reconstruir a parede do útero depois, suturando o miométrio em camadas. É essa combinação entre controle de sangramento (feito tanto com medicamentos, quanto com oclusão temporária dos vasos uterinos) e de destreza e qualidade das suturas que determinam a perda de sangue durante a cirurgia e a resistência da cicatriz para uma gestação futura.
Fazê-la com hastes retas, sem articulação na ponta e com imagem em duas dimensões, é uma das tarefas mais desafiadoras da laparoscopia ginecológica, especialmente para equipes pouco capacitadas. Por isso, diz Sperandio, casos de miomas múltiplos ou volumosos acabam tratados por via aberta em alguns lugares do Brasil, mesmo quando a paciente seria beneficiada pela cirurgia minimamente invasiva.
Em relação à laparoscopia, a robótica traz diferenças especialmente do ponto de vista da técnica, mas com impacto nos resultados clínicos. As pinças do robô têm articulação na ponta e alcançam ângulos que uma pinça laparoscópica reta não faz, o que torna a sutura do miométrio mais ágil e segura. O cirurgião ainda opera sentado, assim como toda a equipe em boa parte do tempo. Essa ergonomia pode afetar até mesmo a tomada de decisões durante o procedimento, já que todos estarão muito mais descansados em um trabalho que pode se estender por horas a fio.
A tecnologia existe – o que falta são profissionais capacitados
Para que uma paciente chegue a esse desfecho, porém, duas coisas precisam coincidir: a disponibilidade da plataforma robótica e uma equipe capacitada para utilizar a tecnologia de maneira eficiente e segura a favor da paciente.
A primeira é cara, mas é a que o país, aos poucos, vem resolvendo. Hospitais brasileiros relataram investimentos entre R$ 11 milhões e R$ 16 milhões por equipamento ao longo da última década – um da Vinci Xi novo custa entre US$ 1,5 milhão e US$ 2,5 milhões, sem contar manutenção e instrumental. Ainda assim, foram cerca de vinte sistemas novos instalados no último ano, e o Brasil responde hoje por algo em torno de 1,5% do parque mundial.
A segunda não se compra. Quando se pergunta a Sperandio por que tantas mulheres com indicação de cirurgia minimamente invasiva acabam operadas pela via aberta, o equipamento não é a primeira resposta. “Falta recurso, mas hoje em dia a gente tem cada vez mais recursos disponíveis nos hospitais, inclusive no SUS. O que falta mesmo é muita capacitação. E a capacitação significa também saber triar os casos que são elegíveis — e, se um cirurgião não está capacitado para utilizá-la, direcionar para equipes que estejam.”
Um útero sem alterações tem em torno de 80 a 100 cm³. Sperandio já operou úteros de 1.000, 1.100 cm³ — dez, doze vezes maiores. Decidir de antemão que um caso desses pode ser conduzido por pequenas incisões, sem conversão para cirurgia aberta no meio do caminho, exige planejamento pré-operatório e experiência para sustentar essa previsão diante da paciente. “As equipes que não têm os recursos e capacitação para utilizar a tecnologia precisam ser treinadas para identificar casos que eventualmente se beneficiariam pelo uso da mesma, e encaminhar para colegas que possam cuidar melhor dessas mulheres.
Cinco anos como auxiliar
A Dra. Juliana Sperandio saiu da faculdade de medicina em 2013. Fez três anos de residência em ginecologia e obstetrícia, onde ainda se operava sobretudo por via aberta, e dois anos de residência em endoscopia ginecológica, já em cirurgia minimamente invasiva. A certificação em robótica veio depois, por volta de 2021/2022.
Essa certificação tem um desenho específico no Brasil. A formação original vinha da Intuitive, fabricante do da Vinci, por meio da Strattner, sua distribuidora no país. Alguns hospitais depois internalizaram o processo — foi por um deles, na Rede D’Or, que ela se certificou. O percurso combina carga horária teórica, horas de simulador e um número mínimo de casos acompanhados e documentados por cirurgiões mais experientes.
Mas nada disso, na leitura dela, é o que efetivamente forma um bom cirurgião. “Eu fiquei cinco anos em imersão em um grupo que só fazia robótica. Isso me ajudou muito a desenvolver onde eu coloco os portais cirúrgicos, quais são os truques para acelerar a sua performance, saber indicar direito e performar direito.”
Há um passo a mais, que ela descreve como essencial de quem quer evoluir na sua prática: rever as próprias cirurgias gravadas para ajustar tempo e técnica. A carreira cirúrgica se distingue de outras áreas da medicina justamente por demandar esse tipo específico de dedicação, uma vez que não se tratam de procedimentos que alguém é capaz de dominar com segurança após poucos casos, como uma inserção de DIU.
Hoje, Sperandio também é responsável por acompanhar a formação das cirurgiãs Carolina Haddad e Gabriela Colasuono, dentro da Oya Care. As duas concluíram a formação oficial e agora vivem a fase de imersão. Na Oya, já foram operadas mais de 360 mulheres desde 2024, com casos de diferentes complexidades.
Existe ainda um componente mais subjetivo para quem opta por seguir carreira na cirurgia ginecológica, custos invisíveis por trás das renúncias necessárias para esse dedicar à área. Sperandio conta que, na sua trajetória, foi necessário, por exemplo, abrir mão da obstetrícia, dos plantões (uma das principais fontes de renda de médicos recém-formados), e demorou a ter retorno financeiro sobre os investimentos que fez em sua formação.
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A paciente de Fortaleza está bem.
A cirurgia durou uma manhã. A possibilidade de fazê-la daquele jeito levou treze anos de experiência profissional para ser construída, e ainda não chegou à maior parte do país. Cabe a médicas como Sperandio, experientes e habituadas a operar casos complexos, desenvolver possibilidades para que cada vez mais cirurgiões tenham acesso à tecnologia robótica e capacitação para utilização da mesma.
Sperandio é proctor (instrutor capacitado para ensinar outros cirurgiões) em cirurgia robótica, e acredita que cada vez mais mulheres serão beneficiadas pela tecnologia com a difusão do acesso e formação de qualidade de novos cirurgiões.
A Dra. Juliana Sperandio participou do Salvata Experience a convite da organização do congresso.






