Cirurgia de endometriose: o que dois anos de espera me ensinaram sobre o corpo, a dor e a cura

Foram dois anos entre saber que eu precisava operar e, de fato, entrar no centro cirúrgico. Dois anos pode parecer tempo demais. Para mim, foi o tempo necessário. A sensação que tive ao entrar no centro cirúrgico foi de que tudo estava acontecendo no tempo certo. E realmente, depois dos achados, foi.

Receber o diagnóstico da endometriose, junto com a necessidade de tratamento cirúrgico, desencadeou uma série de investigações internas. É importante dizer que nem todas as pessoas com endometriose vão precisar de cirurgia, mas para quem tinha dois endometriomas grandes nos ovários, como eu, o tratamento com cirurgia é o mais indicado.

Neste relato você vai encontrar:

  • Como recebi o diagnóstico de endometriose
  • Por que precisei fazer uma cirurgia
  • Como me preparei física e emocionalmente
  • Como foi a recuperação da cirurgia de endometriose
  • O que aprendi sobre fertilidade, autocuidado e escuta do corpo

Preparar um corpo que dói

Nestes anos, preparei minha mente e organizei minhas emoções.

Investiguei minha biografia, acessei medos, traumas, memórias. Tentei entender o que aquele corte mobilizava para além do corpo físico.

Por muito tempo eu tive medo da cirurgia de endometriose. Mergulhei nesse medo e descobri um trauma nunca antes trabalhado. Aos 7 anos, atravessei uma porta de vidro e me cortei inteira. Foram 8 horas de uma cirurgia que me costurou de volta, mas que também deixou marcas em uma criança que passou a se conter, pois ser livre tinha te colocado diante da finitude da vida muito cedo.

É algo grande, mas, por ter ocorrido numa fase em que a memória ainda falha muito, e por ter sido de fato um trauma — não me lembro do pós-operatório, quase 3 meses apagados completamente na tentativa de me proteger —, nunca mais visitei este capítulo da minha vida.

Nestes anos compreendi a endometriose no meu corpo: o que engatilhava dor, o que aliviava.

Aprendi a respeitar o tempo do corpo. A não exigir produtividade de um organismo inflamado, cansado e com dor. Resgatei minha ancestralidade, a história das mulheres que vieram antes de mim e suas relações com a fertilidade e com o útero. Entendi a doença como uma materialização das dores da mulher moderna. Dor, cansaço, ir além dos limites para cumprir com uma perfeição que simplesmente não existe.

Tudo isso gerou muita transformação — não só na minha relação comigo mesma e com os outros, mas também na empatia que hoje sinto das dores alheias. Penso cada vez mais no quanto lugares como a Oya Care realmente são revolucionários ao cuidarem de mulheres e serem motor de reflexão e transformação.

Preparei meu corpo. Fiz musculação, yoga, fortaleci músculos, articulações, respiração e presença. Fui entendendo que um corpo com dor também pode e precisa ser um corpo forte. Mas que força, nesse caso, não tem a ver com vencer limites. Tem a ver com escutá-los.

Foram dois anos de uma constância inconstante. Tinha dias que seria uma agressão me movimentar. Outros, que seria alívio e até cura de sintomas da endometriose. A endometriose é uma doença inflamatória. Cuidar do estresse com yoga, terapia, alimentação e movimento foi uma forma muito efetiva de amenizar os desconfortos por estar indo na essência do que desencadeia a inflamação: o controle do cortisol.

Entre muitos trabalhos de cura, medicações e suplementações (muito bem orientados pelas minhas médicas de confiança) e movimento, cheguei na cirurgia com cinco meses seguidos sem dor.

A cirurgia de endometriose

Quando a cirurgia de endometriose finalmente aconteceu, eu estava pronta, animada. Consegui finalmente vê-la como um presente, como uma oportunidade de cura física no melhor lugar que poderia escolher.

Eu não acredito que as nossas decisões de vida são obra do acaso. Há 5 anos e meio entrei na Oya Care e, desde então, encarei meu medo de ir na ginecologista, congelei meus óvulos, recebi um diagnóstico de endometriose e agora passei por uma cirurgia. Tudo isso no lugar que chamo de trabalho.

Buscamos, conscientemente ou não, justamente aquilo que tem o potencial de curar algo em nós. Percebi que eu ajudo a construir diariamente a Oya Care e, na mesma medida, a Oya me constrói, a cada dia. Nas discussões de pauta, nas pesquisas, na escuta das colunistas e na minha jornada de saúde, que é uma jornada de aproximação com meu corpo.

Minha relação com a Oya Care conta também da minha relação comigo mesma, com as minhas escolhas e descobertas, uma influenciando a outra e ambas crescendo, virando versões mais reais de si mesmas.

O ambiente hospitalar pode ser um tanto inóspito, mas me senti tão acolhida. Tão vista. A equipe cirúrgica foi impecável, a Dra. Juliana Sperandio demonstrou um cuidado que é difícil de traduzir em palavras.

Os achados da cirurgia de endometriose foram mais graves do que estava mapeado no exame. Aqui faço uma pausa para frisar uma pauta muito recorrente na Oya Care: estamos a anos-luz de pesquisas e avanços científicos que dêem conta de compreender, mapear e tratar as questões femininas. A endometriose é só um entre muitos exemplos e a gravidade da doença no meu corpo – e o fato de que ela passou despercebida, mesmo com acesso a bons profissionais e exames – é uma evidência disso.

Mesmo diante de uma operação mais complexa do que o esperado, o pós-operatório da cirurgia de endometriose me surpreendeu muito. A mente humana às vezes tem dificuldade em pensar muito à frente. Eu não tinha refletido sobre o pós-operatório. Nem ao menos tinha realizado que teria cicatrizes. Minha energia foi destinada a abrir espaço interno para acomodar a cirurgia.

Um corpo que responde

Passada a cirurgia, ainda grogue da anestesia, só tinha gratidão no meu coração. Tudo correu muito bem e tive alta em menos de 24 horas. Mas em algum ponto entre o caminho do hospital para minha casa, me deparei com a expectativa padrão de um pós-cirúrgico de dor.

Os primeiros dias foram desconfortáveis. Essa é a palavra. Barriga distendida, intestino preso. Efeitos esperados e normais do pós-cirúrgico de laparoscopia robótica (por conta dos anestésicos utilizados). Mas ao invés da dor, que nunca chegou, encontrei um corpo funcional.

Um corpo que já andou no primeiro dia, como é a recomendação padrão do pós desse tipo de procedimento. Andei no segundo. Segui andando, aumentando aos poucos a caminhada. Meu intestino voltou a funcionar rápido. Meu corpo respondeu desde o início com funcionalidade.

Foi a primeira vez que experimentei no corpo a ideia hoje muito discutida de longevidade. Foram anos transformando a minha relação com meu corpo e com atividade física e comida. Hoje o autocuidado deixou de ser encarado como uma obrigação ou castigo e passou a ser uma fonte de prazer. Passou a ser também um cuidado para minha eu do futuro.

Envelhecer com disposição, chegar nos 80 anos com um corpo que responde, senta, levanta, tem autonomia para seguir vivendo novas experiências — é o que todas queremos. Mas depois de ter passado por essa cirurgia, tendo acabado de completar 34 anos de idade, percebi que cuidar do corpo, da alimentação, da saúde e do movimento é também preparar o corpo para os momentos difíceis do agora.

Ócio criativo, terra fértil

A recomendação médica era ficar duas semanas sem fazer nada, a não ser a caminhada progressiva. Em repouso, sem trabalho, sem estresse. Por recomendação médica, precisei parar. Ficar em casa. Suspender a agenda, os planos, os compromissos, os deslocamentos. Eu, que sempre tiro férias para viajar. Eu, que preencho fins de semana com estudos, retiros, passeios, encontros, festas. Eu, que quase não lembro a última vez em que fiquei uma semana inteira em casa sem fazer nada.

Nesse vazio induzido, encontrei uma versão muito pulsante de mim. Me vi criativa. Cheia de ideias. Fértil no sentido mais amplo da palavra. Li, comecei a aprender xadrez, escrevi, assisti a alguns filmes e fiquei muito tempo apenas existindo. Algo que para algumas gerações atrás fazia parte da vida e hoje parece algo muito raro, principalmente numa cidade grande como São Paulo.

Não consegui ficar as duas semanas em repouso total. Voltei antes, em etapas, ao trabalho. Mas uma semana de repouso total já me mostrou a importância da pausa real. Quando voltei, me vi com ideias renovadas, com uma visão mais clara das coisas. E, principalmente, com uma consciência diferente, um olhar mais cirúrgico (não pude resistir ao trocadilho) para o essencial.

Sigo em recuperação, fechando o 15º dia pós-cirurgia. Os processos seguem acontecendo, tanto no corpo quanto nos aprendizados e reflexões que passar por algo deste tamanho traz.

O que já foi curado

Passei dois anos me preparando para uma cirurgia. Olho para esse período e entendo hoje que foi muito mais do que isso. A endometriose me forçou a olhar para coisas que precisavam mudar. Me forçou a me alimentar melhor, a parar com o tabaquinho do fim de semana.

Me forçou porque a dor é o corpo gritando. E quando o grito chega, algo realmente precisa ser feito. 

Hoje tenho uma relação mais gentil com meu corpo, uma escuta muito mais refinada dos meus limites. Hoje tenho mais uma história na minha biografia que materializa a ideia que plantamos desde o começo da Oya de que fertilidade é muito mais do que a capacidade de gestar um bebê.

Fertilidade é a capacidade de gerar. Ideias. Novos caminhos. Novas versões de mim mesma. Os cortes na minha barriga, ainda em processo de cicatrização, são a marca de mais um capítulo da minha história. 

Sigo em recuperação. Mas com a certeza de que muito já foi curado neste processo.

Sobre a autora

Maria Artioli é líder de marketing da Oya Care.

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