Assim como cada uma de nós é única, a forma como a endometriose chega, cresce e se mostra presente é diferente para cada pessoa. Aos 30 anos estava fazendo os famosos check-ups enquanto me organizava para estudar fora do Brasil. Faltando pouco mais de um mês para a viagem, a Dra. Juliana Sperandio suspeitou que eu tinha endometriose.
Dentre as reclamações “normais” de cólica, fluxo intenso, cansaço extremo, “moleza” nas pernas que eu apresentei, a Ju soube identificar a possibilidade de endometriose e solicitou o ultrassom com preparo intestinal. Nada te prepara para fazer esse procedimento pela primeira vez e fico muito feliz que tenham me recomendado uma clínica que preza pelo cuidado com as pacientes durante o exame.
Descobrindo um novo universo
Antes mesmo de ter a certeza, recorri ao Google, às minhas irmãs e amigas para entender melhor o que era essa tal de endometriose e o que isso significaria na minha vida. Sorte a minha que a Ju teve paciência de me explicar tudo o que se sabia até o momento. É muito duro ouvir que você tem uma doença pouco estudada, por mais que ela seja comum.
Para o tratamento, fizemos um plano inicial considerando os meus sintomas, a localização da doença e o fato de que estava a poucos dias de me mudar de país em meio a uma pandemia. Para começar, ela sugeriu que eu fizesse algumas sessões de fisioterapia pélvica antes de viajar. Fisioterapia pélvica, oi?
Mais uma coisa para a lista de tudo que eu não sabia que existia ou como funcionava no universo da endometriose. A parte boa é que rapidamente descobri que, apesar dos desconfortos e dores durante as sessões, a fisioterapia pélvica foi mesmo um dos melhores recursos para aliviar os meus sintomas.
Além dessas “novidades”, a confirmação de que tenho endometriose também me fez refletir sobre vários momentos de dor física no passado. Fiquei pensando se eles poderiam ou não estar relacionados à doença e lembrei de conversas que tive sobre o tema com parceiros e treinadores físicos.
Plano de tratamento personalizado
Durante o primeiro ano, nosso foco esteve em aliviar os sintomas da doença através de uma rotina de atividades físicas regulares, alimentação balanceada e fisioterapia pélvica. Quando repeti o ultrassom (agora já sabendo o que me aguardava) um ano depois, vimos que o meu foco de endometriose havia dobrado de tamanho.
A recomendação, então, foi começar a tratar os sintomas com hormônios. Fazia sete anos que eu não tomava mais pílula anticoncepcional e resisti no início, mas com o tempo achamos uma opção adequada para mim.
Ter endometriose me fez estar mais atenta a como meu corpo reage a tudo o que eu sinto, tudo que eu faço, tudo que como. Quando tenho semanas mais intensas no trabalho ou até mesmo mais cansativas emocionalmente; quando faço pouca atividade física e tenho pouco tempo para mim, sei que as dores vão ser piores.
Tento correr contra o tempo e descansar antes da próxima menstruação na tentativa de compensar, mas já me programo para passar o máximo de tempo possível no sofá nesses dias. Atualmente tenho conseguido amenizar os sintomas e sinto que a maior diferença está no uso de hormônios e na fisioterapia pélvica.
No entanto, sei que infelizmente a cirurgia é a única coisa que faz a doença diminuir, por isso considero dar esse passo em algum momento.
“Agora todo mundo tem endometriose”?
Hoje também falo sobre endometriose sempre que surge a oportunidade, mesmo que meus colegas no trabalho não fiquem confortáveis com o assunto. Acho importante que esse tema seja tratado como algo normal.
O que mais me incomoda é ouvir coisas como “ah mas agora todo mundo tem endometriose, né”, como se fosse moda e não algo sério, como se o aumento no número de pessoas diagnosticadas não significasse que finalmente a endometriose está recebendo atenção depois de ser ignorada por tantos anos.
Temos que reforçar que sentir dor não é normal e seguir buscando a origem dos nossos desconfortos. Cada pessoa é única, cada dor também, e todas merecemos alívio e tratamento para nossos sintomas, sem medo de ser feliz.
Sobre a autora
Melanie (Mel), tem 33 anos e é advogada, irmã (orgulhosa) da Ste, fundadora da Oya, e oyana de carterinha desde o dia 1. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.
marçoamarelo






