Vivendo com endometriose: a dualidade da dor

Quando eu tinha 14 anos, tive a minha primeira menstruação. A partir desse momento, a cada mês o ciclo se repetia, sempre marcado pela dor, uma sensação que passou a se tornar rotineira. Um incômodo que no meu corpo repetidamente foi sendo incorporado ao meu dia a dia.

A sensação ficava ali, me acompanhando, persistentemente: a endometriose já estava presente, ainda que escondida.

Era como se uma onda de raios chocasse contra um rochedo, num movimento que parecia uma dança. Essa onda era dolorida e fazia meu corpo todo se contorcer. O mais doloroso, talvez, tenha sido viver por anos com a angústia de não entender:

  • Por que essa dor existia?
  • Como fazer pra ela ir embora?

As diferentes faces da dor

A dor tem o poder antitético de nos paralisar e ao mesmo tempo ser sinal para o movimento.

Ela nos avisa de que há algo para ser cuidado e presentifica nosso estado, nos chamando para o agora. O tempo foi passando e a convivência com a dor das cólicas a cada período menstrual foi se tornando mais próxima, intensa e íntima.

Foi preciso, então, tomar uma decisão: deixá-la tomar conta da minha vida, ou torná-la minha aliada na busca do conforto.

O diagnóstico de endometriose

A resposta veio através de olhos treinados, sensíveis aos meus sintomas: endometriose.

Já havia mencionado as cólicas em atendimentos médicos anteriores, quando eu era mais nova, mas nenhuma profissional tinha me pedido até então os exames corretos, ou dado a devida atenção ao que eu dizia. A médica da Oya me orientou realizar o ultrassom transvaginal com preparo para estudo da endometriose.

Lá estavam eles: pequenos focos da doença, nas paredes do meu útero curvado para dentro.

Descobri que meu útero, além de ser retrovertido e lateralizado (envergado pra dentro e pra direita), também abrigava focos de um tecido inflamado, responsável pelas fisgadas que sentia no pé da barriga e pelo sangramento intenso que descia a cada mês, desde a adolescência.

A importância de um nome

Agora tinha um diagnóstico e minha condição não estava estava mais na obscuridade: aquela dor não era um exagero da minha cabeça.

Ouvi muito que era normal sentir cólicas quando comecei a menstruar, então entendia que sentir aquela dor era uma sentença.Através do diagnóstico, no entanto, foi possível desfazer esse mito, concretizar a doença, entendê-la, deixá-la ser olhada, descoberta e cuidada.

A determinação orgânica e clínica, a partir do olhar da ciência, abriu possibilidades de convivência com aquilo que estava no campo do não-saber (e, algumas vezes, da desconfiança) diante do que gritava ser real.

“Fugir da dor é perda de tempo”

A dor é um sintoma importantíssimo, evolutivo, que nos protege e direciona nossas atenções ao corpo.

O bebê quando está com fome e a barriga dói, chora pra comunicar aos cuidadores que há algo que deve estar em primeiríssimo lugar naquele momento: a alimentação.

A cólica da endometriose faz o papel de nos avisar sobre a existência de uma doença incurável por aqui. Nos mostra a necessidade da investigação para averiguar se ela está trazendo prejuízos, e do monitoramento periódico da evolução dos focos da doença.

Priorizar o que o corpo nos comunica pode ser um desafio, mas é possível e necessário!

Adélia Prado, sensível e genial, expande a noção da existência e do sofrimento e nos ensina:

Todos temos motivos de sofrimento: a finitude da vida, a nossa precariedade, nós envelhecemos, adoecemos, morremos, temos amor, temos ódio, esperança, temos desconfortos físicos, morais, filosóficos. Então, tudo isso é sofrimento. Uma das coisas mais importantes na vida de uma pessoa é encarar o sofrimento. Dizer um sim para aquela dor. Fugir de dor é uma perda de tempo, você encontra ela lá na esquina outra vez. É possível sofrer em paz.

Vivendo com endometriose: rumo ao equilíbrio

O corpo é uma morada permanentemente inacabada, que exige um trabalho constante emocional, intelectual, espiritual e físico. Aprendi com a endometriose que é possível criar formas de ser e estar no mundo em que a dor conviva com a tranquilidade.

Achar caminhos no cotidiano, como exercício físico, alimentação, medicação assertiva também foi essencial. A ciência e a sensibilidade juntas têm o poder de nos acolher e cuidar do nosso corpo.

Os movimentos contrários podem se equilibrar e essa é a vida — um constante enredado, costurado por nós, capaz de unir o sofrimento com o prazer de estar viva. Seguimos juntas.

Sobre a autora

Dora Leite é psicóloga e líder da equipe de Atendimento às Oyanas da Oya Care. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.

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