Vivendo com endometriose: em busca do prazer possível

“Um corpo que dói pode sentir prazer?”

Foi com essa pergunta que me deparei, há alguns meses, no Instagram da Oya Care.

Antes mesmo de continuar a leitura, meus olhos se encheram de lágrimas. Se você não tem um útero, ou tem um em plena funcionalidade, talvez não compreenda completamente, mas acredito que muitas pessoas vão se identificar com o que venho compartilhar neste texto especial de Março Amarelo.

Sentir dor é coisa de mulher?

Meu corpo começou a sinalizar os primeiros sinais de ataque em 2005, há exatos 20 anos. Uma guerra interna que, na época, eu, uma adolescente começando a menstruar, entendi como parte trivial do processo de “se tornar mulher”. Desde criança, aprendi que a mulheridade estava diretamente relacionada ao sofrimento — ou, pelo menos, foi isso que me fizeram acreditar.

Como me disseram repetidamente que a cólica era não apenas uma parte normal, mas inevitável, da menstruação, não questionei quando ela me dominou e, literalmente, me derrubou. Não contestei também quando fui parar no hospital pela primeira vez devido à dor. Nem na segunda. Nem na décima.

Só lamentei. Só aceitei o fardo. Só tentei ser uma boa garota. Afinal, varrer a dor pra debaixo do tapete é um ato passado de geração em geração pra gente.

Sentir prazer é para quem?

Corta para 2008, um cigarro L.A. de cereja (que andou para que o vape conseguisse correr e, por favor, apenas não caiam nessa) na mão e uma Keep Cooler de pêssego na outra, o álbum Black To Black da Amy Winehouse tocando no Windows Media Player depois de ser baixado no eMule (ok, me sinto oficialmente vintage — se você tem menos de 30 anos, talvez precise procurar esses termos no Google) e a decisão de que daquela noite não passava.

Eu estava muito pronta para buscar os prazeres do sexo, algo que cedo entendemos ser a grande obsessão dos adultos. Não existia um pingo de nervosismo em mim, apenas a ansiedade de cruzar logo aquela linha imaginária que separa os “virgens” dos que sabem viver.

E, no meio daquela dança jovem totalmente desengonçada, tentando alcançar algum encaixe, uma dor profunda me tomou como uma punhalada interna. De novo, ouvi e aceitei que era assim mesmo.

A verdade é que grande parte da minha vida íntima foi carregada de mais dor do que prazer, mas isso eu já contei na terceira edição da newsletter. Então, o que eu venho fazer hoje é justamente pegar outro ponto de partida e falar como foi o processo de pescar o bem estar sexual com as próprias mãos.

Em busca do prazer

Obviamente, essa não é uma jornada fácil, mas é bem pior se tentamos seguir sozinhas e caladas.

Quando eu já trabalhava com sexualidade e vivia por dar as ferramentas necessárias para outras mulheres terem mais autonomia corporal, me sentia uma farsa ao pensar que meu próprio corpo me traía dessa forma. Como alguém que ensina sobre uma vida sexual mais saudável não conseguia manter a sua assim?

Se faz parte do meu trabalho sair por aí dizendo que não é normal sentir dor durante a penetração, que isso é um sinal de alerta em neon piscante, como nenhum ultrassom conseguia indicar o que pra mim já era claro?

O que ninguém te conta quando se convive com uma dor crônica é que, em certo ponto, você acaba se acostumando. Você precisa seguir com a vida, certo? Se relacionar, ter uma vida social, trabalhar — essas coisas mundanas e triviais da experiência humana.

Passar os dias na cama, em posição fetal, não é uma opção viável para a maioria de nós. Então, você pega sua dor pela mão e a leva para passear. Às vezes ela está mais presente, em outras mais discreta, mas você nem consegue mais lembrar como são os dias sem ela.

A descoberta da endometriose

A primeira vez que eu ouvi a palavra Endometriose e sua breve explicação, uma luz acendeu na minha cabeça como num desenho animado. Eu não saberia nem explicar sobre os muitos anos alternados entre tentativas de compreensão e o “eu sou posso estar louca ou exagerando” antes de dar nome às coisas.

Dar nome às coisas importa demais. Porém, virei estatística, e meu diagnóstico demorou muito mais do que eu esperava — mais de uma década, para ser exata.

Por sorte, acredito, meu trabalho me fez entender que o sexo poderia ser prazeroso, apesar disso tudo. Mas é algo que na minha condição, até então desconhecida, exigia um nível extra de paciência e cuidado (claro, ter um parceiro paciente e cuidadoso também foi fundamental).

A libido, nesse caso, vai estar naturalmente mais baixa, a disposição também, e isso vai trazer a famosa culpa. O famoso “eu deveria ser mais assim ou gostar mais daquilo”. A luta diária é tentar se acolher mesmo quando partes suas te rejeitam.

Nunca vou esquecer a primeira vez que tive uma consulta ginecológica onde fui realmente compreendida. Era 9 de novembro de 2023 e, apesar do calor desnorteante que fazia na cidade de São Paulo, meu suor saía gelado. Às vezes, a gente sente medo até de dar fim ao que nos derruba. E eu sabia que quando entrasse no consultório da Dra. Juliana, as coisas mudariam pra sempre.

De fato, nunca ninguém tinha me mostrado num 3D quais os músculos e nervos estavam comprometidos. O cuidado no exame também foi novidade. Tudo foi tão diferente do que eu tinha vivido até aquele momento que eu só soube chorar por dias a fio — primeiro, de felicidade, depois, de tristeza, por saber que essa experiência ainda é tão rara.

Depois de um 2024 inteiro vivido sem (quase) nenhuma dor, tem dias que eu até esqueço que a realidade sempre foi outra. Chega a ser engraçado poder estar completamente relaxada e presente buscando prazer, sem um pezinho ensaiando a corrida de fuga.

Endometriose não tem cura, mas tem cuidado. Com o tratamento e o acompanhamento certo, é possível sim ter uma vida que não é só pela metade, ou um desejo desacompanhado do medo.

Por isso, neste mês e nos outros, digo a você: se o seu corpo está te mandando sinais, não deixe que a negligência dos outros também seja a sua. Gente que se importa existe. Assim como suas dores e seus prazeres são de extrema importância.

Sobre a autora

Claris Leal é educadora sexual, expert em sex toys e escreve sobre prazer na Elle Brasil. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.

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