Vivendo com endometriose: um diagnóstico que traz transformação

Ser humano é ser cíclico. A natureza está sempre em movimento, nascendo, morrendo — e nascendo novamente. Assim como ela, vivemos ciclos nos dias, lunações, estações; ciclos universais, que nos atravessam e afetam a todos nós. Existem outros que são particulares, muito próprios, e que pertencem exclusivamente à nossa biografia; perdas, vitórias, términos, graduações.

Há, ainda, aqueles ciclos que nós, pessoas com útero, experimentamos através do nosso corpo: menarca, ciclo menstrual, gravidez (pra quem escolhe esse caminho) e menopausa. Como mulher cis, olho pro que ainda me espera com um misto de deslumbramento e medo.

Para mim é muito fácil ver — de longe — a beleza deles porque depois de grandes transformações as pessoas tendem a sair maiores e mais verdadeiras com a própria (olha ela de novo!) natureza. Eu mesma já me engrandeci depois de viver alguns tantos ciclos.

Mas se transformar não é nada fácil. Daí, o medo.

Doença crônica, o ciclo sem fim

Se transformar dói, é difícil, é solitário. O incerto é dos territórios mais desafiadores que existem. E é também tudo o que temos. O controle é das maiores falácias que inventamos. Tentamos controlar a vida e dá tão certo quanto tentar pegar fumaça com as próprias mãos.

Mesmo sabendo disso, ai, como é difícil se entregar! Como é difícil confiar no fluxo da vida!

Um desses ciclos não anunciados, bem próprio da minha biografia, deu as caras há exatamente um ano, quando recebi o diagnóstico de endometriose. 

Um diagnóstico muda tudo, mas também não muda nada

Um diagnóstico de endometriose muda tudo. Dá contornos à dor, ao sangue em excesso, ao cansaço. Explica aquela crise paralisante em pleno expediente lá em 2017. Dá sentido às posições fetais que viraram regra a cada menstruação durante a pandemia.

Um diagnóstico também não muda nada. As dores continuam, as crises também. Meu caso de endometriose é cirúrgico; porém, os focos podem voltar. Bloqueio hormonal seria o mais recomendado para evitar a recidiva da doença. De repente, muitas decisões precisam ser tomadas a partir dessa nova descoberta.

Quando operar? O que mais tentar como forma de controle da doença? Acupuntura, fisioterapia pélvica, óleos essenciais?

A verdade é que eu não queria ter que tomar nenhuma dessas decisões. Queria que não fosse necessário fazer tantas escolhas sobre meu corpo. Logo eu, que sempre fui a favor da mínima intervenção; que gostei de ciclar, de viver meu corpo em sua totalidade. Logo eu, que sempre me cuidei. 

Endometriose: um convite ao desconhecido

O diagnóstico de endometriose mexeu com muita coisa aqui dentro, e segue mexendo. Mas o tempo é realmente um senhor muito bonito: um ano depois, sinto que conseguir criar espaço para mergulhar em tudo que essa doença significou e significa pra mim. 

O primeiro grande mergulho foi na minha raiva em relação à endometriose e à sua indicação cirúrgica, que não é regra para todos casos. Raiva, taí um sentimento novo. Sentimento, não emoção, pois a emoção sempre esteve aqui, mas a consciência sobre ela era muito pouca.

Atribuo isso à minha “síndrome de boazinha”, uma das questões que trato com recorrência no meu processo terapêutico.

Mas a raiva, como todas as outras emoções, é muito importante e válida. Reconhecer isso está sendo um passo fundamental no atravessamento do tema endometriose na minha vida. Sinto raiva de ser comigo, raiva sobre a gravidade do meu caso, raiva de precisar precisar passar por uma cirurgia.

Ainda estou trabalhando para acomodar essa doença, para criar um espaço confortável para a endometriose na minha biografia e no meu corpo. Quero chegar em um lugar de contentamento, de aceitação. Acredito que será neste lugar que a raiva será transmutada.

Para isso, preciso chamá-la pra perto, acolhê-la. 

A (re)descoberta da dor

É tudo muito novo, a doença, a raiva e também o entendimento das muitas dores — físicas, emocionais e psicológicas — que carrego por conta disso. 

Por falar em dor, ela é o grande tema quando o assunto é endometriose. Ainda assim, por muito tempo disse que não sentia dor, que era assintomática. Que grande mentira que contei para mim mesma e pro mundo! De novo, a mulher infalível que não pode sentir dor, não pode reclamar, não pode incomodar. Tanto não pode, que sequer percebe a dor.

Mas ela mandou sinal sim — e segue mandando. Às vezes baixinho, às vezes bem alto. Nosso corpo grita quando não o ouvimos — que bom! O corpo tem sabedoria e tem sido uma grande aprendizagem esse exercício de ouvi-lo. Também projeto em gerúndio, com alguns passos percorridos e muitos mais a percorrer. 

A vida com endometriose

A tentativa desse texto é relatar o meio de um ciclo, onde tenho mais dúvidas do que respostas, mais processos e percursos meio andados do que lições aprendidas. Sigo com raiva, sigo com dor, sigo olhando para minhas emoções, revisitando traumas, dialogando com meu corpo e abrindo espaço para viver essa cirurgia com amorosidade e gratidão.

Sou falha, estou “em construção”. Sou também potente, forte. Sou (natureza) viva. Cabe muita coisa em mim, cabem muitas contradições, aprendizados, aberturas, encerramentos e crescimento nesse longo processo de transformação pela endometriose. Essa é a beleza que estou tentando buscar.

O objetivo, agora, é ver a poesia desse ciclo enquanto o vivo, pois ele ainda está em pleno vapor aqui, provocando mudanças e reflexões, me expandindo. Como diria Viviane Mosé, “a dor nos expande”.

Que a gente consiga viver a beleza dessa expansão enquanto ela ocorre. De pertinho, com paciência e coragem, palavras-chave aqui nesse momento.

Que a gente consiga encontrar conexão na vulnerabilidade.

“A dor nos expande”

Desde meu diagnóstico, faço novas descobertas a cada dia. Sobre a endometriose, sobre mim mesma, sobre meu corpo. E sobre tantas outras mulheres. Pois essa jornada, quando compartilhada, abre espaço para muita troca, para muita conexão.

Sem elas, esses 365 dias com a endometriose teriam sido muito diferentes. A cada história que ouço, a cada dor confessada, a cada relato de cirurgia vivida, a cada medo compartilhado, o meu entendimento sobre meu próprio processo ganha novos contornos.

A dor fica menor no coletivo e os ciclos são muito mais bonitos quando somos capazes de nos entregarmos, sem resistência, aos processos de transformação. 

Sobre a autora

Maria Artioli atualmente lidera a estratégia de marketing e comunicação da Oya Care. Para ler outros textos sobre a vida com endometriose, clique aqui.

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