Ser saudável é exercitar a autopercepção

Nos últimos anos, o autocuidado se tornou uma palavra de ordem. Dormir bem, comer direito, treinar, meditar, investir nas relações, gerenciar o estresse: os cinco pilares do estilo de vida saudável parecem simples na teoria, mas no dia a dia podem virar mais uma lista de cobranças.

A Dra. Juliana Sperandio, líder da equipe cirúrgica da Oya Care, conhece bem esse dilema. Graças ao aprofundamento em Medicina do Estilo de Vida que ela traz no currículo profissional, e da endometriose que carrega no histórico de saúde, ela vive o duplo papel de quem lê as evidências científicas e, ao mesmo tempo, sente no corpo os limites de tudo que a teoria recomenda.

Nesta conversa, ela compartilha o que aprendeu ao longo dos anos: que ser saudável não é performar perfeição, mas exercitar a autopercepção. Que nem sempre dá para equilibrar todos os pratinhos, e tudo bem. Que o mais importante pode ser identificar quais são os seus próprios pilares e investir energia neles — sem culpa por não dar conta do resto.

Você é uma médica que estuda bastante sobre estilo de vida e também é uma mulher que vive com endometriose. Como essa experiência de “agente duplo” te faz olhar diferente para o autocuidado?

Dra. Juliana Sperandio: Demorei alguns anos para conseguir realmente elaborar tudo que isso significa. Do ponto de vista médico, a tendência é olhar para a evidência científica. Então, segundo a medicina, o ideal de estilo de vida é construído a partir de cinco pilares: alimentação, exercício físico, manejo de estresse, vida social e sono. No cuidado da endometriose, essas cinco caixinhas também fazem parte das diretrizes de tratamento. 

Mas do ponto de vista humano, eu sei que a gente não consegue sustentar todos esses pratinhos com a mesma qualidade, o tempo todo. É justamente aí que as pessoas se perdem e acabam vivendo em extremos. É muito mais fácil viver nos extremos do que encontrar os 50 tons de cinza.  

Costumo recomendar para minhas pacientes o exercício de se hackear. Usar a autopercepção – e isso pode ser treinado a partir de meditação, atividades, conversas com as amigas – para entender, dentre esses cinco aspectos, o que faz mais diferença no seu dia a dia. Na maior parte dos casos, são um ou dois pilares que estruturam todo o resto. Minha recomendação é identificar quais são eles e investir mais tempo, dinheiro, energia, e se permitir cometer pequenos deslizes nos outros. 

Isso não significa comer McDonald’s todo dia (risos), mas se não comer bem um dia ou outro, não vai fazer mal. Minhas pacientes têm centenas de outras preocupações além da doença crônica, que acaba sendo mais uma coisa no pacote que tem filho, trabalho, família… Minha experiência com as evidências científicas e com o convívio com a doença me ajuda a mostrar pra elas como flutuar nesse espectro, longe dos extremos. 

Como você aplica esse pensamento na sua rotina?

Dra. Juliana Sperandio: Meus principais pilares são sono e exercício físico. Eu durmo todos os dias às nove da noite, no máximo dez, e acordo cinco e meia. Cheguei nesses horários de acordo com o meu ciclo circadiano, que aprendi através do livro “Por Que Nós Dormimos“. 

Ele ensina que existem dois perfis: das corujas e das maritacas. As corujas são aquelas pessoas que precisam de mais horas de sono, que deitam mais tarde e acordam mais tarde. As maritacas são aquelas que acordam cedo. É importante entender quem você é nessa fila do pão e tentar sincronizar isso com seu trabalho e sua rotina. Esse é um ajuste que eu tento não desequilibrar.  

O outro é o exercício físico. Não deixo de praticar pelo menos cinco vezes na semana. Uso meu ciclo menstrual como referência também. Se estou prestes a menstruar, sei que não vou render tanto quanto na fase estrogênica, folicular. Nesses dias, faço mais alongamento, caminhadas, exercícios que não exijam tanto do meu corpo. Em compensação, pego mais pesado em outras fases do ciclo, para equilibrar. 

Já o estresse é algo difícil de controlar. Eu sou médica, não tem como não viver uma vida estressante. É muito difícil falar para a paciente que ela não pode se estressar, mas se estou diante de uma pessoa muito sensível ao estresse, que tem piora de dor a partir do emocional, oriento a investir mais em ferramentas que podem amenizar esse aspecto, como terapia, meditação.

E já houve algum momento que você sentiu que o excesso de cuidado ou preocupação com a saúde acabou se tornando um problema para você?

Dra. Juliana Sperandio: Com certeza. Só tive esse insight de identificar meus pilares fundamentais porque passei muitos anos sofrendo de diversas maneiras [na tentativa de equilibrar tudo]. 

Por exemplo, antes, exercício físico era uma obrigação, não um prazer. Fui aquela adolescente que era sempre a última a ser escolhida na educação física, tinha muita cólica. Na faculdade, por outro lado, eu fazia exercício em excesso, e isso, para quem tem uma doença crônica como a endometriose, não é adequado. Não faz bem para ninguém, a não ser que você seja uma atleta de elite. 

Então cheguei a pesar muito pouco, meu ciclo era irregular. Em outros momentos, ganhei muito peso, mais do que deveria, e como eu tenho a síndrome do ovário policístico, isso me descompensou muito. Eu não usava o exercício como recurso de saúde, era só estético. 

Hoje eu não faço atividade física porque preciso emagrecer ou engordar, isso é consequência. Quando a gente tira o componente estético da jogada, fica muito mais fácil fazer o que precisa ser feito de maneira prazerosa.

Você tem percebido uma mudança de comportamento em relação à saúde ao longo dos últimos anos, no contato com as pacientes?

Dra. Juliana Sperandio: Com certeza. Um exemplo claro é o uso dos aplicativos de monitoramento do sono, cada vez mais populares. Não descarto o recurso, principalmente para quem tem distúrbios do sono e precisa de investigação – embora ainda não existam muitos estudos e meta-análises sobre a eficácia deles. 

Usar isso como performance, ter esses dados como prova de que você tá entregando tudo na hora de dormir [não faz sentido]. Não é todo mundo que precisa dormir oito horas por noite, tem quem viva bem com seis horas de sono. Mais importante do que usar esses aplicativos, é entender se você realmente está descansando, se se sente disposta, se não tem sonolência diurna. 

O contrário também é verdade: dormir 12 horas não significa necessariamente que você dormiu bem. Então, o que vejo cada vez mais no consultório são pessoas usando a tecnologia como performance, não como uma ferramenta que trabalha ao seu favor.

Muitas pessoas com endometriose se sentem sobrecarregadas diante da verdadeira gestão de saúde que a doença impõe para ser tratada adequadamente. O que você costuma dizer para quem chega com essa queixa para você?

Dra. Juliana Sperandio: Se a endometriose traz alguma coisa positiva, é a oportunidade que ela nos dá para olharmos com muita honestidade para os nossos próprios corpos. No dia a dia, negligenciamos muita coisa, mas a doença crônica te obriga a parar – às vezes até ao ponto da estagnação – para enxergar o que precisa de melhoria.

O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudar a elencar as prioridades. Fazemos isso na consulta. Por exemplo: num mundo ideal, todo mundo deveria ser acompanhado por uma nutricionista também. Mas às vezes essa não é uma prioridade para um determinado caso – a prioridade é encontrar um tipo de exercício que não ative a síndrome miofascial para não gerar mais dor, ou ajustar o sono. 

Não adianta nada eu falar que ela precisa fazer tudo ao mesmo tempo. Meu papel é também o de diminuir a ansiedade a partir do entendimento das prioridades específicas do quadro de saúde de cada uma. É assim que a gente consegue andar: sem se cobrar desnecessariamente, sem ansiedade por querer fazer tudo.

Para você, enquanto médica, quais são as vantagens e desvantagens que as redes sociais trazem para a discussão sobre vida saudável?

Dra. Juliana Sperandio: Muitos médicos, nutricionistas, etc, usam as redes sociais como canal para compartilhar evidências científicas, estudos e informações que servem de suporte para as pacientes. Se é informação de qualidade, acho ótimo.

Sobre malefícios, além da desinformação, é a forma como as redes sociais ajudam a promover tratamentos que prometem milagres sem evidência científica. Os grupos online também são complicados, pode ajudar muito, mas também podem ser espaços de muito julgamento.

Como identificar que ultrapassamos um limite na busca por ser saudável e se cuidar?

Dra. Juliana Sperandio: O primeiro sinal de alerta é você se sentir mal com alguma prática. E se sentir mal não é ficar com preguiça de acordar para fazer atividade física, mas ter ânsia de vômito fazendo exercício, deixar de ir numa festa de aniversário para manter a dieta. Isso me dói na alma. Também é importante ficar de olho se os tratamentos estão afetando os exames. 

Acredito também que de tempos em tempos a gente precisa fazer uma revisão de rota, ajustar a vela do barco, sabe? É fácil entrar no modo automático e perder de vista para onde estamos indo. A cada dois ou três meses eu me organizo, olho para minhas metas, vejo o que está funcionando, o que pode melhorar, avalio a questão financeira. Falamos pouco sobre isso, mas ter endometriose demanda uma boa gestão financeira também, porque são muitos gastos com medicação, consultas, exames, cirurgia. Se você não se organiza, vira uma fonte de estresse.

A partir desse exercício de autopercepção, você se considera saudável atualmente?

Dra. Juliana Sperandio: Essa é a pergunta mais difícil de hoje (risos). A gente vive flutuando entre o saudável e o não saudável. Eu amo operar, é o que eu faço de melhor, é a minha especialidade. Mas se eu faço muitas cirurgias por mês, acabo não tendo uma rotina saudável. É difícil [achar o equilíbrio] porque eu gosto de empurrar meus limites. Ser saudável para mim é exercitar a autopercepção de maneira constante, para saber se a forma como eu estou vivendo está boa ou não. É aí que encontro saúde. 

Algumas coisas me ajudam com isso: ter uma rotina matinal, por exemplo, em que eu acordo cedo, leio meu livro, tomo meu café… isso funciona como meu ponto de encontro comigo mesma, um reset. Se paro de fazer isso por qualquer motivo, eu adoeço. Manter a rotina de atividade física também é algo que me centra muito, porque é o momento em que eu desligo o celular e me conecto comigo mesma.

Sobre a autora

Especialista em cirurgias ginecológicas minimamente invasivas e com mais de mil cirurgias no currículo. Além de focar no tratamento de pessoas com endometriose, miomas e pólipos, por exemplo, ela tem uma abordagem multidisciplinar, individualizada e uma importante bagagem acadêmica e profissional.

Tire todas as suas dúvidas

Nossa equipe de ginecologistas especializados em fertilidade, ginecologia endócrina e sexualidade pode te ajudar

Conheça a Oya Care

Acreditamos que conhecimento é poder e esse é nosso espaço para falar sobre vários assuntos importantes para sua saúde, sua fertilidade e muito mais

Leia também

O que é, afinal, uma vida saudável?

Dra. Nati fala sobre os impactos culturais do culto ao corpo no Brasil, compartilha o que aprendeu observando hábitos de saúde em outros países e aponta por que a fertilidade é um verdadeiro termômetro da nossa saúde geral.

Conheça a Oya Care

Acreditamos que conhecimento é poder e esse é nosso espaço para falar sobre vários assuntos importantes para sua saúde, sua fertilidade e muito mais