Você se considera uma pessoa saudável?
Talvez a resposta dependa de onde você aprendeu o que significa “ter saúde”. Durante muito tempo, essa ideia esteve associada à ausência de doença; atualmente, ela está vinculada a um corpo necessariamente magro, a uma rotina impecável de exercícios e alimentação “limpa”. Mas a verdade é que a saúde vai muito além do que se vê — ela envolve como nos sentimos, como descansamos, como reagimos às pressões do dia a dia e até como lidamos com o próprio corpo quando ele muda.
Ao mesmo tempo, temos aprendido a complexificar nossa ideia de saúde em nome de uma relação mais generosa com nós mesmos. Cada vez mais pessoas têm buscado entender seus limites, reconhecer sinais de esgotamento e repensar a relação com o autocuidado. Ainda assim, em meio a tantos discursos sobre produtividade, performance e padrões estéticos, ser saudável continua parecendo uma meta difícil — quase inalcançável.
Para entender como essa noção de bem-estar vem evoluindo e quais são os desafios reais de viver com equilíbrio, conversamos com a endocrinologista e nutróloga Nara Nóbrega. Na entrevista, ela fala sobre os extremos do cuidado — da ortorexia ao abandono da própria saúde —, sobre as transformações trazidas pelas novas terapias para obesidade e diabetes, e sobre os desafios da menopausa, uma fase ainda cercada de tabus.
Uma conversa sobre o corpo, limites e a busca por leveza — porque, no fim das contas, cuidar de si não é fazer tudo certo, mas encontrar o seu possível em diferentes fases da vida.
O que é ser saudável para você?
Dra. Nara Nobrega: A saúde não é ausência de doença, mas a capacidade de bem-estar físico e mental. Uma pessoa saudável não só é uma pessoa que não tem doenças, mas também é aquela que tem uma alimentação saudável, que faz exercício e se movimenta, que consegue subir uma escada, correr atrás de um de um filho, de um neto. Isso é saúde física. A saúde mental é a capacidade de viver de acordo com seus propósitos. Ou seja, conseguir estar em ambientes sem que eles te afetem psicologicamente, ter resiliência mental, saber para onde está indo. Mas o principal é a ideia que saúde não é sinônimo de ausência da doença.
Na sua prática clínica, você tem percebido que a forma como as pessoas se cuidam tem mudado nos últimos anos?
Bastante. As pessoas têm percebido mais quando o corpo reclama, quando está cansado. Elas já não insistem, mas pedem por ajuda e percebem que passaram do limite. Tenho visto tanto pessoas mais jovens chegarem a um entendimento de que se perderam em algum momento e acabaram deixando a saúde de lado – ao abandonar a qualidade da alimentação, o exercício, a priorização do sono, as interações sociais, que estão com o estresse muito aumentado. Percebo isso e percebo também que as gerações mais velhas estão preocupadas com a longevidade saudável. Elas não querem necessariamente viver mais, mas elas querem viver bem o tanto que elas forem viver.
Se formos comparar com outras gerações, de 1960 para trás, por exemplo, temos pessoas que envelheceram muito cedo, inclusive mentalmente. É a figura dos nossos avós, uma senhorinha de cabelo branco, um senhorzinho frágil, mas por trás dessas imagens temos uma população que não fazia exercício, que viveu quando ainda era legal fumar. É uma uma geração que ficou muito dependente dos filhos e que perdeu a autonomia [muito cedo].
Na contramão, a geração que vem agora não quer o mesmo destino dos pais. O cuidado mudou porque estamos olhando para essa população idosa que hoje vive mais graças aos avanços da medicina, mas que vive sem qualidade de vida. Isso não era tão gritante antes porque as pessoas viviam menos. Agora que sabemos que dá para viver mais, estamos preocupados com essa vida lá na frente.
Você tem recebido também pessoas que chegam num extremo desse cuidado, pesando a mão por querer ficar saudável, ou é mais comum ver pessoas esgotadas quando pensam em tudo que precisa ser feito para uma vida saudável?
Existe a pessoa chega com diagnóstico de ortorexia, que é aquele distúrbio em que a pessoa sente que precisa comer tudo 100% limpo, 100% saudável, que precisa treinar 100% do tempo, precisa fazer tudo perfeito como se qualquer coisinha fosse contaminá-la. Mas, mais do que isso, vejo as pessoas tentando buscar isso a partir de uma sensação de que elas não são saudáveis. Essa ideia vem de um parâmetro de saúde que elas veem nas mídias sociais e elas não conseguem viver daquela forma, porque não é mesmo factível. As pessoas entenderam que para ser saudável é preciso treinar todos os dias ou correr uma maratona. Precisa ter uma porcentagem de gordura perfeita, não comer nenhum carboidrato, cortar os doces, não pode mais beber. São várias metas que surgem através das redes sociais e as pessoas acreditam que só podem ser saudáveis se alcançá-las. Eu não vejo as pessoas esgotadas por tentar [chegar nesse ideal], mas vejo pessoas frustradas, que não se consideram saudáveis, por não chegar num ideal impossível de saúde, como se existisse um único manual para ser saudável.
Como você orienta essas pessoas? O que realmente importa no estilo de vida para cuidarmos da saúde sem deixar que isso vire uma patologia?
A primeira coisa é buscar embasamento científico, sempre. Não oriento ninguém a partir de vozes da minha cabeça. Diante disso, explico para o paciente que não ser sedentário não significa, necessariamente, treinar todos os dias. Eu pergunto: você sabe o que são 150 minutos semanais? São trinta minutos, cinco vezes por semana. Você pode treinar menos dias se aumentar a intensidade. Então eles falam: “Ah, eu me encaixo nisso!”. Ótimo, então você pode se considerar saudável. Mostro que fazer exercícios de fortalecimento muscular duas vezes na semana já é suficiente, e isso é comprovado cientificamente. Digo que eles até podem fazer mais, mas não é necessário se não cabe na rotina ou estilo de vida.
Tento tratar tudo com leveza e mostrar que se a pessoa não vive disso [fazer exercícios], ela não precisa malhar todo dia. Mas a gente enxerga [nas redes sociais] as pessoas postando o treino todo dia, e esquece que elas vivem para isso. Tento também me humanizar e mostrar que não é porque eu sou endocrinologista, que eu sou nutróloga, que não como doces. Busco o equilíbrio, e ter equilíbrio é fazer caber de tudo: não comer um tipo de alimento de jeito nenhum já é desequilíbrio, porque é extremo. E todo extremo é ruim.
O que a gente não deve comer é ultraprocessado, industrializados muito pobres, fast food. Mas macarrão é uma comida de verdade. Pizza é farinha, queijo, tudo isso é comida. É importante não demonizar certos alimentos. Tento provocar com leveza para ir aos poucos desconstruindo as crenças limitantes.
Qual foi a mudança que as canetas para diabetes e obesidade trouxeram para o seu consultório?
Tem muita gente preocupada com as pessoas magras que estão usando esses medicamentos sem necessidade, só para atingir um padrão de beleza. Isso realmente é preocupante, mas não é o que vejo no meu dia a dia. Primeiro, é importante falar do benefício que esses medicamentos trazem, principalmente para pessoas que têm muita dificuldade de tratar a obesidade. De repente, elas começaram a acreditar que era possível melhorar, e elas têm melhorado muito.
Além disso, precisamos olhar para além do estigma da obesidade. Quem sofre com essa doença não são só aquelas pessoas que visivelmente têm um IMC acima do recomendado. Diante de um exame de bioimpedância, ela pode estar apenas em sobrepeso, sem estar sujeita a doenças associadas a gordura corporal aumentada. Existem aquelas com excesso de gordura corporal que pode não incomodar esteticamente, mas que leva a hipertensão, diabetes, colesterol alto. As canetas são muito interessantes para o cuidado de muito mais pacientes do que a maioria das pessoas imagina. Aquela pessoa que você acha que não precisa, pode necessitar. Existe o magro metabolicamente doente.
As canetas ajudam também porque as dietas restritivas não são sustentáveis no longo prazo, para a maioria das pessoas. Se o paciente perde peso através da dieta, ele vai contar os segundos para aquilo acabar. É um processo fadado ao insucesso. Quando você coloca uma rodinha na bicicleta, ele vai sofrer menos no processo de emagrecimento, ele curte mais o processo porque vê os resultados rapidamente, se anima porque sobra energia para manter esse peso e, de fato, mudar seus hábitos. A pessoa que está brigando para perder meio quilo por mês, que não pode fazer nada [para não engordar], uma hora vai se cansar. Então começa a gangorra de perder e ganhar peso. Não é o remédio que faz a pessoa emagrecer, ele ajuda a fazer o que é necessário para emagrecer.
Sobre alertas, o que tenho visto são pessoas que passam a comer menos graças aos medicamentos e entram em déficits nutricionais importantes. Vejo muita perda de massa muscular, muita deficiência de vitaminas, por causa do uso indiscriminado e sem orientação. Mas a pessoa magra que está usando o remédio sem necessidade faz parte da menor parcela… Hoje o Brasil tem uma população em que mais da metade das pessoas são obesas. Então, em um grupo de dez pessoas, cinco podem estar usando uma caneta. A gente leva um choque porque 50% é muita gente, mas é o tratamento correto.
Qual a responsabilidade dos médicos na hora de prescrever e orientar o uso das canetas nesse momento?
Primeiramente, saber orientar sobre os efeitos colaterais. Tudo tem um custo. Os efeitos colaterais existem e você precisa alinhar as expectativas para que o paciente saiba o que fazer. A segunda grande responsabilidade é saber conduzir o emagrecimento para que ele ocorra de forma gradual, não muito rápida. É importante alinhar com o paciente que o objetivo da medicação não é deixá-lo inapetente até parar de comer, para perder 10kg em um mês. A intenção é que o paciente coma direito, de maneira saudável, e a medicação vem para ajudá-lo a manter essa rotina. Explico que o remédio é como a rodinha da bicicleta: não adianta nada se ele não aprender a pedalar primeiro. Eles precisam aprender a ter um estilo de vida mais saudável – se não quiser, ok, mas aí a pessoa não vai conseguir largar o remédio.
Muita gente que tem reganho de peso diz que as canetas não funcionam, mas isso acontece com quem não faz o uso para ajudar a emagrecer, mas porque quer ser emagrecido.
Agora, queria trazer o foco da conversa para climatério e menopausa. O que você enxerga como maior desafio para quem está entrando nessa fase?
Ainda é um tabu muito grande. O mais desafiador é falar a respeito, a população tem uma visão mais machista do tema, ninguém valoriza muito. A mulher que está apresentando os primeiros sintomas ouve frequentemente que está estressada, ou não é levada a sério porque “está menopausada”. Isso é muito sofrido porque coloca a menopausa como uma coisa negativa. O que o tabu também faz é que a grande maioria das mulheres só vai procurar saber sobre menopausa quando já pararam de menstruar, e não durante o climatério. Ela não se prepara para isso, mas o ovário não para de funcionar da noite para o dia. Mas ninguém fala sobre isso antes porque se você chega para uma mulher de 45 anos e diz que em breve ela vai entrar na menopausa, ela se sente ferida.
Mas a menopausa não é mais sinônimo de envelhecimento. Ela é o envelhecimento do sistema reprodutor. Isso vai acontecer com todas nós e precisamos estar preparadas. O sofrimento é maior quando não falamos do assunto.
Outra grande dificuldade é tratar a terapia hormonal como algo padronizado, porque não é. Se vemos dessa forma, a pessoa suspende o uso quando tem os primeiros efeitos colaterais e não tenta de novo. Não tem ninguém ali para tentar adequar ou ajustar o tratamento para que ela possa seguir. Então é um tabu para pacientes e também para os médicos.
Do ponto de vista fisiológico, existe um sintoma que se destaque mais, que faz com que mais pessoas busquem ajuda médica?
Acho que é a queda na disposição. Parece algo pequeno, mas é sofrido porque não tem uma solução imediata. O calor é difícil, mas você pode usar roupas frescas, se abanar, o pico vem e passa, todo mundo sobrevive. Mas o climatério também piora a qualidade do sono. Isso deixa as mulheres cansadas, e essa falta de disposição se junta com a perda de energia que o estrogênio traz. A rotina se torna mais pesada, se arrasta. Isso traz irritação, aí ela deixa de fazer as coisas porque também está irritada. No final, é como se ela de repente começasse a viver fazendo o mínimo. Por conta disso, acho que uma das principais queixas tem a ver com a queda no bem-estar e na disposição.
A gente sabe que as mudanças no estilo de vida também são muito importantes no climatério. Como você ajuda essas mulheres que já estão indispostas e sobrecarregadas? Como encontrar o equilíbrio?
Gosto de usar analogias. Uma delas é assim: “Viver a menopausa é como subir uma escada rolante ao contrário: tem que ter esforço contínuo, senão você volta com tudo pra baixo.” Uma queixa comum é começar a engordar sem ter mudado a alimentação e isso acontece mesmo. Não é justo, mas é o que acontece. É normal ganhar de 5kg a 8kg nesse período. O que fazer a partir dessa informação? Sabemos que o corpo não vai mais aceitar as indulgências que aceitava antes, então é preciso ter uma dieta mais saudável. O exercício físico também ajuda muito nessa fase, quanto mais você fizer, mais disposta você vai ficar. No começo é difícil, mas com o tempo ele ajuda em todos os sintomas, como qualidade do sono, irritabilidade. Agora ele vai ser um tratamento.
Faço o possível para normalizar a situação, mostrar que não é culpa delas e que se revoltar também não adianta. A maioria delas se engaja [no tratamento]. Se a gente só fala que menopausa é isso mesmo, ferrou, você vai ganhar peso e ter que conviver com outros sintomas, o médico se torna um portador da desgraça. Por isso é importante dizer que é normal e que ela consegue sair disso.
O que você acha que é mais importante para a mulher que está entrando nessa fase ou até já está na menopausa? Em que ela deve focar para não se perder em meio a tantas informações novas e cobranças?
Ter um bom médico ou uma boa médica, seja ginecologista ou endocrinologista. Confiar no que essas pessoas dizem, porque muita gente vai vir com dicas e recomendações. Ela vai ouvir que reposição hormonal dá câncer, ou que não precisa repor hormônio, que isso é frescura, tem de tudo. Então ela precisa de alguém para confiar, para ser fonte de informação, uma pessoa que não tenha tabus e que trabalhe com base em ciência e acolhimento.
Acontece muito de a pessoa ter aquela médica de anos, mas que não é especialista em menopausa, então não se sente confortável em prescrever reposição hormonal por medo dos riscos. Então elas simplesmente fecham a porta e dizem que não vão fazer. Não podemos aceitar isso, esse é o momento de migrar para um profissional que entenda do assunto.
Qual o maior mito que você gostaria de desconstruir sobre a terapia hormonal?
Existe a associação com o câncer de mama, que é real, mas o risco é muito pequeno quando você compara com a população geral – desde que a paciente não tenha tido um câncer prévio, histórico pessoal ou familiar que contraindique o uso de hormônios. Hoje a gente faz o acompanhamento muito próximo, trabalhamos com hormônios transdérmicos e a progesterona micronizada, que é muito diferente da pílula combinada. Mesmo assim, ainda existe muito preconceito e muito medo do câncer de mama.
E se você pudesse dar um conselho de saúde, aquele que você gostaria que todo mundo ouvisse, o que seria?
Antes feito do que perfeito. Seja alimentação, atividade física, qualquer coisa é melhor do que nada.
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