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Quais são os estereótipos de fertilidade das novelas?

Testes de paternidade trocados, inseminações artificiais por engano, vilãs que roubam bebês direto dos braços das mães: as grandes novelas quase sempre contam com pelo menos uma reviravolta médica para tornar a trama mais interessante. Mas será que elas reforçam estereótipos de fertilidade negativos?

Não é novidade que as novelas são mais do que um gênero audiovisual popular no Brasil, ou um passatempo para o fim do dia. Vários estudos já mostraram que elas influenciam no comportamento do consumidor, e uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indicou que elas também impactam em decisões como divórcio e filhos.

Por isso, o cuidado na hora de abordar temas e grupos estigmatizados na nossa sociedade é fundamental. Pensando nisso, a Oya decidiu explorar um pouco melhor o modo como as questões de fertilidade (ou de infertilidade!) são abordadas nesse tipo de narrativa, e esclarecer, de uma vez por todas, que algumas coisas só acontecem na ficção.

Quais novelas trabalham a fertilidade e seus estereótipos?

Se você não consegue lembrar de nenhuma novela que tenha sido pelo menos um pouquinho irresponsável na hora de abordar o tema da fertilidade e da reprodução humana, não precisa se preocupar: a Oya preparou uma lista breve, com alguns exemplos clássicos.

Abaixo, a gente te conta onde estão os equívocos de roteiro e por que eles podem ser prejudiciais na hora de compartilhar informações incorretas sobre esses assuntos. Vamos juntas?

O clone (2002)

Escrita por Glória Perez, a principal trama da novela, que confere a ela o seu título, acontece entre o geneticista Dr. Albieri (Juca de Oliveira), Diogo (Murilo Benício) e Deusa (Adriana Lessa). Depois de um trágico acidente, Diogo morre. Abalado, Dr. Albieri, que é seu padrinho, decide usar as células do irmão de Diogo para tentar “trazê-lo de volta”, criando um clone do falecido afilhado.

Essas células, porém, são unidas aos óvulos de Deusa (sem a sua permissão!), uma mulher que sonha em ser mãe e está passando pelo processo da fertilização in vitro. Criado o clone, o embrião é acidentalmente implantado em Deusa antes que possa ser destruído. Desse erro, nasce Léo (Murilo Benício), que não sabe que é um clone. 

A trama é muito envolvente, mas reforça um erro clássico: o de que médicos especialistas em reprodução humana podem fazer (e fazem!) o que bem entenderem com os óvulos de suas pacientes. A personagem Deusa chega, inclusive, a questionar a aparência do próprio filho — que, aliás, curiosamente não herda nenhum dos traços da mãe.

Enquanto mulher negra, Deusa acaba representando, ainda, a história de outras mulheres negras que foram utilizadas como cobaias da indústria farmacêutica e, mesmo hoje, são submetidas a esterilizações forçadas. Essa referência, na novela, porém, infelizmente não é feita de maneira crítica. 

Em 2002, o assunto da reprodução assistida ainda era muito novo. Mas isso só significa que o cuidado para lidar com ele deveria ser muito maior. Afinal, esse tipo de narrativa pode diminuir as chances de casais que lidam com a infertilidade buscarem ajuda profissional, com medo de sofrerem, eles mesmos, inseminações erradas, ou de não terem seus desejos respeitados.

Senhora do destino (2004)

A novela de Aguinaldo Silva tem como trama principal a história de três mulheres — Maria do Carmo (Susana Vieira), Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) e Lindalva/Isabel (Carolina Dieckmann) — que se misturam quando Nazaré, já em um quadro de infertilidade feminina, decide sequestrar Lindalva, filha de Maria do Carmo, e criá-la como sua.

Apesar do sucesso, a novela peca na hora de fazer referências à infertilidade de Nazaré. Na época, algumas ONGs ligadas ao tema chegaram a enviar mensagens de protesto à Rede Globo, motivadas por falas que reforçavam falsos estereótipos da mulher infértil.

Em uma cena, por exemplo, Isabel usa termos como “barriga oca” e “seca” para se referir à falsa-mãe. Há também falas que reforçam a ligação entre a gestação e a capacidade de sentir amor materno, indicando que Nazaré era “incapaz de amar” porque “nunca foi mãe”. Por fim, a novela reforça uma espécie de “inveja” entre Nazaré e Maria do Carmo, causada, justamente, pela capacidade desta de gestar uma criança.

Ou seja: apesar do enredo ser muito atraente, a representação da mulher infértil deixa a desejar e pode ser, inclusive, uma fonte de desinformação. Afinal, Nazaré recebe diversas indicações de ser emocionalmente instável justamente porque não pode engravidar — o que sugere que esse é um quadro comum a outras mulheres que têm a mesma condição. 

Fina estampa (2011)

Em outra produção de Aguinaldo Silva, o tema da reprodução assistida ganha espaço. Fora do ciclo de protagonistas da novela, acompanhamos a história de Esther (Julia Lemmertz) e Paulo (Dan Stulbach), que escolhem passar por uma fertilização in vitro para que ela possa engravidar. 

Para isso, buscam a ajuda da médica Daniele Fraiser (Renata Sorrah). Ela, além de ter atitudes absurdas na clínica (como o consumo exagerado de álcool e o relacionamento com pacientes), realiza uma troca de embriões proposital. Ao inseminar Esther com o embrião de outro casal, faz com que o relacionamento dela com Paulo sofra ainda mais, já que eles passam a disputar a guarda da filha, Vitória, contra a mãe biológica.

Por um lado, abordar o tema da FIV e as suas possibilidades foi uma decisão acertada. Afinal, a idade é o principal fator da infertilidade feminina. Isso porque a nossa reserva ovariana é finita e os óvulos perdem a qualidade com o passar dos anos. Esther passa por isso e é sempre interessante ter esse tipo de conscientização numa mídia de tanto alcance como a televisão.

No entanto, a maneira como a novela conduziu o assunto contribui (e muito!) para aumentar o estigma com esse tipo de tratamento, o que pode levar casais inférteis a desistirem dessa opção

Sete vidas (2015)

Na novela escrita por Lícia Manzo, acompanhamos a história de Miguel (Domingos Montagner), que, sem dinheiro e morando nos Estados Unidos, torna-se um doador de esperma. Algumas décadas depois, descobre-se que ele gerou cinco filhos, cada qual com a sua história:

  • Julia (Isabelle Drummond), Pedro (Jayme Matarazzo) e Felipe (Michel Noher) são filhos de pais estéreis;
  • Bernardo (Ghilherme Lobo) tem uma mãe solteira;
  • Luís (Thiago Rodrigues) e Laila (Maria Eduarda de Carvalho) têm duas mães;
  • Joaquim (Bernardo Berruezo) é gerado naturalmente.

Julia, ao descobrir que é fruto de uma inseminação artificial, começa a buscar mais informações sobre seu pai biológico na internet. Esse é o processo que leva os irmãos a se encontrarem, todos unidos pelo “doador 251”.

A confusão está no fato de que, até 2021, no Brasil, as doações de esperma eram estritamente anônimas — coisa que não necessariamente acontece nos Estados Unidos. Desde a implementação da Resolução CFM nº 2.294/21, parentes de até quarto grau podem realizar a doação de gametas para familiares; se esse não for o caso, o anonimato permanece.

Para o público brasileiro, portanto, o que ficou com Sete Vidas foi apenas a sensação de que o anonimato não é assim tão seguro, o que pode prejudicar a tomada de decisão tanto dos doadores, quanto dos casais que contam com essas doações.

Qual é o problema dos estereótipos de fertilidade nas novelas?

De modo geral, as novelas funcionam como um falso-espelho: as narrativas têm um quê de verdade, mas também precisam ser exageradas para que se tornem interessantes e façam com que os telespectadores continuem voltando, noite após noite. As reviravoltas são, assim, uma parte fundamental da trama, e quanto mais indignação geram, maiores as chances de serem um sucesso.

Não raro, essas reviravoltas acontecem dentro de um espaço hospitalar, envolvendo absurdos médicos. E, por mais que seja impossível construir uma obra de ficção completamente ligada à realidade, o problema de reforçar estereótipos de fertilidade está no impacto negativo que eles podem ter na saúde de pessoas que enfrentam problemas similares.

O Brasil é o líder latinoamericano em tratamentos de reprodução assistida, mas isso não significa que o acesso a eles acontece com facilidade. Quando falamos de fertilização in vitro, por exemplo, precisamos lidar com a narrativa de que essa forma de concepção não é “natural”, e com o medo de que os óvulos ou espermatozoides sejam “trocados” nas clínicas de fertilização.

Outros estigmas, como o “ventre seco”, quando reforçados, podem fazer com que pessoas que desejam engravidar, mas lidam com um quadro de infertilidade, nunca busquem tratamento. Os impactos dessa decisão são físicos, mas sobretudo emocionais. Afinal, a capacidade de gestar ainda é um dos principais fatores na construção de uma identidade feminina. 

Isso tudo pra dizer que, enquanto obras de ficção, é claro que as novelas nunca vão poder ser completamente realistas. E a gente nem quer que isso aconteça! Mas é importante ter em mente que tratar de temas de saúde, como a fertilidade, requer cuidado e atenção. Felizmente, esse cenário vem melhorando nos últimos anos. Assim, quem sabe em breve a reprodução assistida não seja mais um tabu, né?

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