Na primeira sessão de terapia depois do meu último término de namoro, minha terapeuta me perguntou como eu estava. Respondi que estava bem, mas “com um buraco no peito”. O comentário que recebi de volta mudou minha forma de me enxergar: “Maria, a gente sente no corpo”.
Sim, algo tão simples como essa constatação me mostrou o quão distante eu estava de realmente estar conectada com o que eu sinto.
Emoções e sentimentos
Em um post antigo da Oya, a gente elaborou sobre a diferença importantíssima que existe entre emoções e sentimentos.
As primeiras são as reações físicas que sentimos diante de um estímulo qualquer: uma cena de um filme emocionante, uma mensagem muito aguardada, um carinho do seu pet, um carro que fechou seu caminho de forma abrupta. Tristeza, medo, amor, raiva.
Já os sentimentos são a forma como elaboramos essas emoções. É o processo mental que dá sentido a essas reações primárias involuntárias. É aqui que a ansiedade, por exemplo, reina.
A nossa mente é capaz de prolongar um momento por dias, semanas, meses e até anos, sustentando um estado que agora já é fruto não do que nos aconteceu, mas daquilo que demos de qualificação ao ocorrido.
Da mesma forma, como no meu caso do término, é possível que a gente sinta emoções e sem dar a elas nenhum significado. Elas ficam ali, acontecendo sem que haja consciência. E assim, enterramos algo importante que precisava vir à tona.
Agora, voltando à minha epifania da terapia, foi naquele momento que me dei conta de que meu corpo e minha mente são um só. Uma conclusão simples, mas que me impactou de muitas formas.
Corpo e mente
Por muito tempo, dei muito mais atenção à minha mente do que ao meu corpo. A ele, só sobravam críticas, dietas, atividade física que ia e vinha sem consistência e uma grande cobrança que vem daquele desejo construído culturalmente de ter um corpo “ideal”, ainda que isso mude de tempos e tempos (e cada vez mais rápido).
A verdadeira Maria acontecia na mente. No intelecto, no trabalho, nos livros que lia, nas conversas que tinha. Eu era porque pensava, parafraseando Descartes.
O corpo, em segundo plano, foi ficando descuidado. Deixei passar despercebidos os sinais da endometriose que só descobri esse ano e tantas outras emoções que não tomei consciência. Enterrei traumas e vivi uma relação muito complicada com academia, muito mais pautada em ódio do que amor pelo meu próprio corpo.
As epifanias tem disso, né. São momentos em que uma eureca acontece. Eu vinha de anos de estudos sobre mulheres e nossas relações com as emoções, com o corpo. Mas aquele momento foi um marco. Foi como se tudo o que ainda estava só na mente se fundisse ao corpo nessa simbiose que tenho buscado em vários contextos e questões desde então.
Ser uma, ser inteira, comigo mesma. Não mais fragmentos, de pensamentos, de conhecimento, peito, bunda, barriga.
A cura pelo corpo
Dois anos antes dessa conversa, passei por um momento muito difícil. Tinha vivido um trauma e me peguei em uma fase extremamente desconectada de mim mesma. A sensação é que estava amortecida para tudo.
Incapaz de sentir alegria extrema e, mais importante, tristeza extrema. Foi um mecanismo que encontrei para seguir vivendo. Olhando em retrospecto, eu estava apenas existindo.
Foram muitas as coisas que me tiraram daquele lugar mas, se pudesse destacar um aspecto chave, adivinhem, foi o corpo.

Minha relação com atividade física tem um histórico complexo e flutuante. Sempre fui aquela pessoa que fazia 3 meses de academia e depois ficava 6 meses parada. Aí voltava, pra uma atividade nova, e conseguia ir 5 meses seguidos… para logo em seguida ficar 3 meses parada de novo.
Coincidência ou não, os retornos sempre coincidiam com os presságios do verão, onde meu corpo seria exposto em alguma praia.
Naquele ano desafiador, foi ainda mais difícil sustentar uma constância. Fui muito pouco para a academia. Cansaço e preguiça eram palavras diárias na minha mente e também nas conversas com amigos. Foi só no final do ano, perto do verão (pasmem!), que decidi pegar firme. A escolha da vez foi: yoga e musculação.
Esse período foi um dos mais difíceis que já vivi e acredito que isso tenha escancarado, por contraste, como movimentar o corpo fazia bem para minha mente.
O corpo fala
A cada prática, a cada aula, eu notava minha ansiedade se reduzindo enquanto os hormônios e neurotransmissores do bem tomavam conta de mim, o que fez com que meu sono melhorasse também. De repente, eram essas melhorias que me faziam querer ir de novo e de novo para a prática de exercícios, não mais a urgência de ter um corpo X ou Y.
Meu corpo foi o grande catalisador da mudança que vivi nos meses que se seguiram. E todo dia — mesmo que muitas vezes sem querer — eu escolhia sair de casa e para praticar.
Há dias em que estou mais travada e percebo que isso é verdade não só no alongamento da perna, mas também nos meus pensamentos. Se está difícil manter o equilíbrio, paro para refletir sobre o que pode estar desequilibrado em outras esferas da vida.
De forma parecida, quando estou mentalmente cansada, sei que preciso pegar mais leve com meu corpo. Tudo está intimamente relacionado, porque tudo é um só. Meu corpo diz muito sobre meu estado mental e essa percepção também fez com que a atividade física se tornasse uma ferramenta de autoconhecimento.
Hoje faz dois anos que escolho todos os dias ir para a academia ou para o tapetinho de yoga. Tive a sorte (e a persistência) de encontrar atividades que me dão muito prazer. Acho que essa é uma premissa quando o assunto é se movimentar. Mas isso não significa que quero ir todos os dias. Pelo contrário.
Escolha é compromisso
É uma escolha diária sair de casa e ir pra academia. Na maioria das vezes tenho debates internos longuíssimos comigo mesma, tentando me convencer a ficar no sofá. São muitas as coisas que podem nos distrair — um dia corrido, a internet que nos engole por horas, a preguiça ou um dia difícil emocionalmente. Esses últimos são os que mais me desafiam a querer ficar imóvel.
Normalmente, o que faz com que o exercício físico ganhe não é o corpo que quero conquistar um dia — aliás, tento cada vez mais me libertar disso, o que ainda é extremamente difícil (e papo para outra coluna) — mas, sim, o bem que o movimento faz para minha cabeça.
Confesso que ver os resultados no corpo que vêm pela consistência também ajudam. Hoje tenho um corpo que responde mais, que aguenta mais, que tem menos dores. Isso é maravilhoso.
Por mais que já sejam dois anos com essa consistência, sinto que a atividade física é um hábito que pode cair por terra facilmente. O sedentarismo venceu em vários anos anteriores. Por isso repito que escolho escolher movimentar o meu corpo a cada dia e quero seguir com essa escolha.
Sobre a autora
Maria Artioli é líder de marketing da Oya Care. Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.







