O que é, afinal, uma vida saudável?

Nos últimos anos, o conceito de saúde foi sendo distorcido. Para muitos brasileiros, ser saudável virou sinônimo de seguir dietas restritivas, cortar grupos alimentares inteiros ou praticar exercícios em excesso. A busca por bem-estar passou a ser marcada por regras, comparações e até pela promessa de soluções milagrosas — uma receita que, em vez de cuidar, tem levado ao esgotamento.

Mas será que saúde é isso mesmo?

Na Oya Care, acreditamos que não. E quem reforça essa visão é a ginecologista especialista em fertilidade Dra. Natalia Ramos, diretora clínica da Oya, que tem acompanhado de perto esse movimento de saturação do autocuidado. Para ela, saúde não está em checklists infinitos, nem em fórmulas universais. Está no equilíbrio, na individualidade e na capacidade de identificar o que realmente faz sentido para cada corpo.

Nesta entrevista, Dra. Nati fala sobre os impactos culturais do culto ao corpo no Brasil, compartilha o que aprendeu observando hábitos de saúde em outros países e aponta por que a fertilidade é um verdadeiro termômetro da nossa saúde geral. Mais do que isso: ela mostra como podemos desconstruir mitos, evitar armadilhas e resgatar um cuidado mais real, humano e possível.

Vamos juntas?

O que significa ser saudável para você, hoje?

Dra. Natalia: Acho que as pessoas hoje perderam muito a noção do que é uma vida saudável. Isso se perdeu ao longo dos anos, principalmente no Brasil. Digo isso porque já tive experiências fora do país e observo que nossa visão é completamente diferente da dos europeus, por exemplo. 

No Brasil, as pessoas acham que ser saudável é seguir uma dieta ao pé da letra. Atendi uma oyana que se julgava muito saudável, mas que não comia carboidrato. Expliquei para ela que isso não era necessariamente bom. Se tem déficit, ou seja, se ela gasta mais energia do que consome de carboidrato, entramos num processo de emagrecimento de uma pessoa que não precisa emagrecer. Isso não é sinônimo de ser saudável. O mesmo vale para a prática de atividades físicas. Se você faz exercício de forma extenuante, sete dias por semana, você não está saudável. Isso é nocivo para a fertilidade, por exemplo. A saúde está no equilíbrio, não no desequilíbrio.

Por que existe essa tendência ao desequilíbrio no comportamento dos brasileiros em relação à saúde?

Dra. Natalia: Acho que tem a ver com o nosso culto ao corpo e também com as comparações nas redes sociais a partir da imagem, sejam os perfis de influenciadores, celebridades ou até mesmo de pessoas do seu círculo social.

E o que tem de diferente na Europa?

Dra. Natalia: Primeiro, eles acreditam que ser saudável é comer alimentos orgânicos, frescos, daquela estação. A dieta deles tem quase zero ultraprocessados. Também fazem muito exercício. É algo muito cultural, que os pais passam para os filhos, que eles aprendem na escola desde cedo a valorizar a origem dos alimentos que eles comem. Lá todo mundo sabe se o leite que está tomando é francês, holandês, etc. Eles se preocupam mais com os alimentos do que com o corpo. 

A parte negativa, mas que eu acho que já está mudando, é que os europeus ainda consomem muito álcool e cigarro.

Considerando seu tempo de carreira, você percebe que a forma como as pessoas se cuidam tem mudado?

Dra. Natalia: Sim. Totalmente. Estamos buscando soluções cada vez mais fáceis. A pessoa que precisa perder 2kg e 3kg já quer recorrer às canetas emagrecedoras. Elas querem usar hormônio para construir massa muscular. Pensam na musculatura mais como objetivo estético do que de saúde. 

Vejo muita gente desenvolver ortorexia [fixação obsessiva e extrema em consumir apenas alimentos “puros” e “saudáveis”, com foco principal na qualidade e limpeza da dieta], os distúrbios alimentares têm aumentado muito. Isso é gravíssimo, porque estamos falando de um problema de saúde muito difícil de resolver. E isso não é um problema individual: vivemos numa sociedade que nos deixa predispostos a esse tipo de doença.

Já aconteceu de uma oyana acabar adoecendo de tão preocupada que estava com ficar saudável para conseguir engravidar, por exemplo?

Dra. Natalia: Muito, muito. Tento desconstruir isso de forma leve, porque ela já é bombardeada por muitos estímulos. É o polivitamínico milagroso, uma série de tratamentos alternativos sem nenhuma evidência científica, dietas para aumentar a fertilidade que não tem comprovação… São mulheres impactadas o tempo todo por informações sem evidência científica que criam uma verdadeira neurose. Tento não criticar, mas mostrar o que não tem comprovação. 

Até digo que ela pode seguir usando o que faz bem, mas aviso que não existe solução milagrosa. Porque as pessoas estão vendendo milagres, sendo que é tudo charlatanismo. Elas se aproveitam de uma vulnerabilidade. É triste porque tenho pacientes que acreditam que a gravidez não deu certo porque elas não fizeram tudo certo. 

No consultório, você vê mais pessoas que se cuidam tanto ao ponto de ficar esgotadas ou aquelas que estão tão esgotadas que não conseguem se cuidar, nem no básico?

Dra. Natalia: Eu vejo mais o esgotamento. E é o esgotamento que leva as pessoas a não fazerem o básico. Elas se exaurem buscando alternativas milagrosas e esquecem do básico. Esquecem da atividade física, da alimentação saudável, esquecem até que para engravidar é preciso ter relações sexuais com frequência. O que é realmente eficaz está sendo deixado de lado.

Se você pudesse desconstruir um mito sobre fertilidade e vida saudável que chega com frequência até você, qual seria?

Dra. Natalia: Uma coisa que a gente precisa desconstruir é que existem ferramentas que funcionam para todo mundo. Isso é muito raro. Por exemplo, uma dieta específica pode ser fundamental para uma pessoa, mas não para outra. No contexto de fertilidade, você não precisa mudar sua dieta se você está dentro do peso recomendado, tem uma boa constituição corporal, se ovula regularmente. 

Agora, uma pessoa que tem a síndrome dos ovários policísticos, que causa uma resistência à insulina, precisa olhar para a alimentação de um jeito mais específico. As pessoas precisam ter uma visão crítica e entender que nem tudo funciona para todo mundo, nem tudo é necessário para todos.

Você sempre fala que a fertilidade é um indicador de saúde muito importante. O que isso quer dizer?

Dra. Natalia: Existe um estudo muito interessante que mostra que pessoas do sexo masculino que são inférteis ou que tem a fertilidade espontânea diminuída, morrem mais cedo. Isso quer dizer que se a fertilidade está ruim, a saúde no geral está numa situação prejudicada. Pode ser por obesidade, pode ser por uso inadequado de hormônios… 

Já para pessoas do sexo feminino, não ovular com regularidade é um marcador de saúde muito importante. Será que é por que ela tem SOP e, portanto, resistência à insulina? Será que é uma síndrome metabólica? Uma menopausa precoce? Tudo isso vai afetar a saúde dela para além da fertilidade. 

A fertilidade é um termômetro: se ela está alterada, precisamos entender o que mais  está sendo impactado. Nossos ovários são muito sensíveis, então quando nosso corpo está em sofrimento, para se proteger ele manda mais energia para o cérebro, o coração, os órgãos vitais, enquanto o resto é despriorizado. Os ovários são um dos primeiros a sofrer essa despriorização.

Podemos dizer então que os ovários perdem prioridade porque a gravidez seria uma ameaça ao corpo, ou seria algo não recomendado para alguém que não está saudável?

Dra. Natalia: Sim, é um fenômeno totalmente fisiológico. Nosso corpo nos protege.

Na sua opinião, qual é o melhor hábito que alguém pode ter para cuidar da qualidade dos óvulos? 

Dra. Natalia: Costumo dar duas recomendações. A primeira é a alimentação. Se a pessoa não entende o que é ter uma alimentação saudável, é só pensar se aquela comida tem na feira ou não. Esse raciocínio já tira os ultraprocessados do jogo. Melhor do que qualquer dieta específica é buscar alimentos que você encontra na feira, descascar mais e abrir menos embalagens. 

A outra tem a ver com exercícios físicos. 150 minutos por semana, com intensidade moderada ou alta. Não mais do que isso. Ou seja, uma hora de atividade física três vezes na semana. Não precisa fazer nada extenuante, até porque isso aumenta o estresse oxidativo e não é bom para a saúde dos óvulos. Vale para homens e mulheres.

Existe algum sinal que pode nos ajudar a identificar que estamos ultrapassando um limite na busca para ser saudável?

Dra. Natalia: É difícil ter uma visão crítica sobre nós mesmas, vejo muitas pessoas nesse estado e queria tanto que elas percebessem! Mas acho que bons indicadores são perda de peso muito rápida, queda de cabelo, cansaço excessivo, vontade excessiva de doces. 

É louco observar como as pessoas que entram em processos emagrecedores extremos pensam em comer doce o dia inteiro. E faz sentido, porque se você faz uma dieta muito restritiva, seu corpo vai pedir energia rápida, vem daí a vontade de comer doce. 

É nesse momento que as pessoas começam a recorrer aos medicamentos para tirar esse desejo. Elas viram zumbis.

Como a Oya pode ajudar as pessoas que estão em busca de uma vida mais saudável?

Dra. Natalia: Acho que toda a nossa equipe de cuidados tem a mesma visão sobre saúde, como por exemplo a importância do equilíbrio na alimentação. A gente não tem culto à magreza, entende a fertilidade como termômetro da saúde, ninguém compactua com o uso de hormônios para fins estéticos.

Também acreditamos muito em transmitir conhecimento nas consultas e também fora, em Oya Talks, nos webinars e outros pontos de contato. Mesmo que a pessoa não chegue na consulta para falar de estilo de vida, isso está embutido no nosso discurso para todos os atendimentos – olhando para o caso de cada oyana de forma individualizada, claro.

Sobre a autora

Dra. Natalia Ramos é especialista em ginecologia e reprodução assistida, com uma longa carreira de sucesso em tratamentos de fertilidade e mais de 2 mil procedimentos no currículo (entre produções independentes, congelamento de óvulos, acompanhamento de casais inférteis e mais!), é ela quem cuida dos nossos serviços e supervisiona o cuidado às nossas oyanas.

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