Por ter nascido no milênio passado, eu acreditava que, por ser magra, não precisava me preocupar com atividade física. Naquela época, para mim, o conceito de magreza e saúde se misturavam. E era fácil acreditar nisso com os modelos de beleza que existiam e passavam a mensagem silenciosa de que quanto mais magra, melhor.
Sempre me considerei saudável, talvez inconscientemente, apenas por ter um peso normal. E para completar, meu talento para os esportes era nulo — o que me fazia concluir que, se não era habilidosa fisicamente, melhor investir no que realmente me destacava, que eram os estudos. Como se não bastasse, carregava uma escoliose importante, que trazia dores frequentes e servia de desculpa perfeita para não me exercitar.
O primeiro estalo para a mudança veio quando fiz uma viagem para a Patagônia. Era uma trilha que nem era tão difícil assim, mas para mim foi um enorme sacrifício. Meus filhos chegaram rapidinho ao topo, e eu me senti como se estivesse diante do Everest.
Pela primeira vez, senti na pele que, para fazer o que eu amava — que era viajar — e para envelhecer bem, eu precisava me cuidar melhor. Nunca fumei, gosto de comida saudável, bebo pouco, mas a ausência de exercícios regulares era gritante. E olha que eu, como endocrinologista, passo meus dias orientando pacientes sobre a importância da atividade física.
Mas foi só nesse momento que percebi, de verdade, como existe um abismo entre saber e conseguir fazer. Essa experiência me aproximou ainda mais da realidade dos meus pacientes, porque entendi na prática como é difícil transformar a teoria em hábito.
Então decidi começar a me exercitar pelo que parecia mais empolgante: correr. Achei que, por ser relativamente jovem, seria fácil sair correndo. E correr é uma coisa que empolga.

Resultado: dois meses depois quebrei meu pé. Sim, para quem não se cuida, a conta vem. Tinha tudo para desistir: não gosto de academia e me lasquei na primeira tentativa de realmente me exercitar. Mas encarei o pé quebrado como um aviso de que já havia passado da hora de me cuidar. Por isso comecei a fazer musculação e, devagarinho, fui encarando as corridas de rua que hoje são motivo de orgulho.
Além disso, a musculação, que antes eu via apenas como obrigação, ganhou outro peso agora que estou no climatério. Por mais que eu tenha um biotipo favorável, com o climatério, eu literalmente não reconhecia meu corpo e minha cabeça.
Como reconheci os primeiros sinais bem cedo, logo no início dos fogachos e a insônia, iniciei a terapia de reposição hormonal. Mas até nisso, a atividade física me ajudou. Passei a enxergar ainda mais sua importância para preservar massa muscular, proteger os ossos e garantir independência no futuro. É, de verdade, o meu passaporte para envelhecer com autonomia e não fraturar mais. Mas continuo tentando conciliá-la com as corridas, porque o que eu curto mesmo é estar ao ar livre.
Para mim ficou claro: saúde não tem a ver com um número na balança ou aparência. Tem gente com o corpo trincado à base de anabolizantes. Músculos comprados que vem acompanhados do triplo do risco de infarto. A solução também não é ser magra sem conseguir subir um lance de escada sem ficar sem fôlego. Saúde exige esforço, dedicação e, acima de tudo, constância. Não dá pra confundir estética com saúde de verdade.
Eu achava que um dia começaria a gostar dos exercícios de resistência, mas ainda estou esperando este dia chegar, desconfiada que ele nunca chegue, mas continuo indo. Mesmo sem todo esse prazer, por incrível que pareça, hoje sinto falta de me exercitar quando eu viajo. Você acredita? A Carolina de 20 anos não acreditaria.
Sobre a autora
Carolina Rocha Betônico é endocrinologista, professora e participou da elaboração da edição de 2025 da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes.
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