Congelamento de óvulos: “A coisa mais importante que fiz pela minha saúde mental”

O congelamento de óvulos é um tema que vem ganhando cada vez mais destaque, especialmente à medida que as mulheres buscam maior controle sobre suas vidas reprodutivas e profissionais. Este procedimento não diz respeito apenas à preservação da fertilidade, sua finalidade mais objetiva, mas também surge como resposta ao nosso desejo crescente de planejar o futuro com mais segurança e autonomia.

No meu caso, após um ano do meu primeiro ciclo de congelamento de óvulos, tenho refletido profundamente sobre as mudanças que essa decisão trouxe para minha vida. Este depoimento busca compartilhar essas reflexões e explorar como o congelamento de óvulos, aliado ao planejamento reprodutivo, pode ser uma ferramenta valiosa para o planejamento pessoal e a redução do estresse associado às decisões reprodutivas.

Recentemente, uma amiga próxima me perguntou: “Um ano depois de ter congelado os óvulos, como você se sente?” Tentar resumir em poucas palavras o que sinto após mais de 12 meses do meu primeiro ciclo de congelamento de óvulos me fez refletir profundamente. A resposta que me vem à mente é: mais leve. É como se um grande peso tivesse sido retirado dos meus ombros, algo semelhante à sensação de finalizar a declaração de imposto de renda, mas, neste caso, com um impacto vitalício.

Não é segredo para ninguém que me conhece que ansiedade, sintomas de burnout, pânico e afins são temas recorrentes na minha terapia há mais de uma década. Já experimentei diversas formas de lidar com eles – desde mudar de emprego, país, relacionamento, até trocar de terapeuta e de abordagem terapêutica – buscando encontrar uma solução para aliviar tamanho estresse mental. Agora, posso afirmar que, de tudo o que já fiz em busca do meu bem-estar, o que mais aliviou minha psique foi congelar meus óvulos. 

Esse processo me trouxe uma sensação de alívio e clareza mental que eu não esperava. Posso afirmar com tranquilidade que a coisa mais importante que fiz pela minha saúde mental foi congelar meus óvulos. A verdadeira transformação que experimentei está na minha capacidade de enfrentar a vida com mais paciência e menos pressão. Como uma geração que cresceu ouvindo que “tudo é possível” com esforço e dedicação, muitas vezes nos vemos mergulhados em uma rotina intensa de trabalho e estudo, almejando metas sem fim e, por vezes, ao limite do burnout.

Chegando aos 30 e poucos anos, muitos de nós sentimos uma pressão constante para “estar no lugar certo” na vida, tanto profissional quanto pessoalmente. No entanto, o tempo avança independentemente de nossas conquistas e, para o corpo feminino, a fertilidade tem um prazo de validade mais curto. Essa consciência pode aumentar a ansiedade, levando a decisões apressadas e pressões externas, como casar sem estar completamente pronta ou desistir de oportunidades profissionais em nome da maternidade.

Com o congelamento de óvulos, eu experimentei uma mudança significativa na minha perspectiva. O ato de congelar meus óvulos me deu a liberdade de desacelerar e aproveitar a vida com menos urgência. Percebi que a vida não precisa se encaixar perfeitamente em uma linha do tempo rígida e que há espaço para explorar novas oportunidades e fortalecer relacionamentos sem a pressão constante do relógio biológico.

Esse processo também me ensinou a importância do planejamento e da organização na vida das mulheres. Em vez de ser uma solução de último minuto, o congelamento de óvulos pode e deve ser considerado como parte de um planejamento proativo. As mulheres devem ter a opção de planejar sua fertilidade com antecedência, em vez de enfrentar o estigma de ter ficado para trás ou a falta de informação que faz tantas lamentarem por não terem sido orientadas a olhar com seriedade para essa área da própria saúde.

Incorporar o congelamento de óvulos (que é uma das alternativas possíveis do planejamento reprodutivo, a que escolhi para minha vida, mas que não é obrigatória para todas) nos planos de vida pode ser uma ferramenta poderosa para a autonomia e para a preservação da saúde mental, permitindo que estejamos mais calmas e centradas para tomar as melhores decisões para nossas vidas.

Termos como ‘poder de escolha’ e ‘independência’ são muito usados em relação ao procedimento. Correndo o risco de parecer clichê, eu realmente sinto que tenho mais poder de escolha. Quero enfatizar a palavra ‘poder’. Sinto que sou dona de um corpo que existe para me servir, de diversas maneiras possíveis, tanto no curto quanto no longo prazo. Sinto-me totalmente no controle para fazer escolhas que me convêm a cada momento, sem a necessidade de pensar o tempo inteiro no que elas podem significar em 5 ou 7 casinhas à frente. Deve ser assim que pessoas nascidas com sexo masculino se sentem desde o nascimento.

Na Oya Care, nossa missão é promover o planejamento da vida reprodutiva. Pode parecer complicado, mas não é. Planejar sua vida reprodutiva é olhar para esse aspecto dos nossos corpos com a ajuda da ciência de forma preventiva, através de exames e aconselhamento através de ginecologistas especialistas no tema, capazes de te conduzir nessa jornada de conciliar planos, objetivos e momento de vida com o que seu corpo pode oferecer. Esses passos simples permitem entender quando é a hora de congelar, se faz sentido para você congelar óvulos e até quando é seguro planejar uma gravidez natural de acordo com o seu corpo e o seu contexto de vida. 

Fazer isso não só nos dá mais tempo para refletir sobre a maternidade, com a possibilidade de nos organizarmos internamente e financeiramente, como também oferece uma perspectiva concreta que abre espaço para que outros planos e prioridades possam ser articulados, como viagens e demais projetos pessoais. 

Mais do que uma solução técnica, o planejamento reprodutivo oferece uma liberdade que pode transformar a forma como vivemos e tomamos decisões sobre o futuro. Ao adotar essa abordagem proativa, reduzimos a pressão e a ansiedade associadas às nossas escolhas reprodutivas. A experiência de ter congelado meus óvulos após traçar esse plano trouxe uma nova perspectiva sobre a importância do planejamento e da autonomia para nós, mulheres, que vivemos a passagem do tempo de forma visceral através do corpo. Espero que essa reflexão incentive outras pessoas a considerar o planejamento como uma ferramenta valiosa para garantir um futuro mais tranquilo, sob o próprio controle.  

Em última análise, o objetivo é estarmos preparadas para viver a vida de forma plena, com menos pressa e mais confiança nas decisões que tomamos para nós mesmas.

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