Tenho 34 anos, sou solteira e não tenho a menor perspectiva de entrar num relacionamento romântico no momento. Só que faz tempo que, quando penso no meu futuro, me vejo em família, sendo mãe. Futuro quando? Não sei. Poderia ter sido agora, mas não foi.
Ainda não cruzei o caminho de nenhum cara que fizesse sentido ser o pai dessa família, meu parceiro de vida. E, honestamente, até temo que esse encontro nunca aconteça. Que não apareça nenhum homem do meu interesse disposto a embarcar nessa aventura comigo. Só que, sendo mais honesta ainda, este é um dos meus grandes sonhos: montar minha própria família, com marido, filhos e cachorros.
Ainda assim, congelar os óvulos, até pouco tempo, pra mim, parecia um absurdo. Ficava ofendida (e ainda fico um pouco) de precisar pensar nisso agora. De me preparar para um futuro que nem sei se vai chegar. Bom mesmo seria ter um aparelho reprodutor como o dos homens, mais longevo, e só encarar a questão da maternidade, investir nela, quando enfim encontrasse alguém que me despertasse o desejo de ser mãe dos filhos dele.
Por isso, repetia quando o tema vinha à tona: não quero me preocupar com isso agora, se eu tiver dificuldade de engravidar, isso é um problema da Clara do futuro.
Clara do futuro. Eu mesma, daqui a poucos anos.
Congelamento de óvulos: um plano para o futuro?
Até que me veio uma virada mental: se hoje eu tenho condições de ampliar as minhas possibilidades de gestação no futuro – um futuro que, dada a minha idade e perspectivas de relacionamento, provavelmente se dará num momento de baixa qualidade dos meus óvulos – por que não me preparar agora?
E foi assim que imediatamente perguntei para amigas sobre clínicas de congelamento e me indicaram a Oya Care.
Em poucos dias, já estava na clínica para a minha primeira consulta com a dra. Thaís Luzo, ginecologista e especialista em fertilidade da Oya, que me acompanhou durante todo o processo. Ela me ouviu atentamente sobre motivações para congelar meus óvulos e também sobre meu histórico de saúde; depois, me deu uma aula sobre as etapas do procedimento e as probabilidades acerca dos resultados. Por fim, na mesma consulta, fomos fazer a contagem de folículos – as ”bolsinhas” que abrigam os óvulos imaturos – no ultrassom.
Fiquei bem frustrada quando vimos apenas 6 bolsinhas nas imagens. É um número considerado baixo, já que – simplificando bastante a explicação – o ideal para gestar um bebê por fertilização in vitro é ter entre 15 e 20 óvulos maduros congelados. É isso que os especialistas chamam de funil da FIV. Como essa disponibilidade varia mês a mês, Thaís sugeriu fazermos um acompanhamento mês a mês e iniciar a estimulação hormonal quando a oferta estivesse melhor.
Na minha terceira consulta, com 11 folículos visíveis, decidimos começar.
Como funciona a estimulação ovariana para o congelamento de óvulos
Foram duas semanas até a coleta.
À noite, eu mesma aplicava a caneta na minha barriga, para maturar o máximo de óvulos possível com a ajuda de hormônios; pela manhã, tomava uma pílula para impedir a liberação desses óvulos. Lá pelo 6º dia, notei que tava mais sensível quando, do nada, chorei de molhar o rosto todo ouvindo Gal Costa.
A partir daí, fiquei bem emotiva, variando entre irritação por interações na internet, ansiedade elevada e choradinhas recorrentes.
Todo dia comia um doce bem gostoso, mesmo sem vontade intensa, só para me dar uma alegria no meio de tudo isso. Lá pelo 9º dia a barriga foi ficando inchada, uma combinação de óvulos crescendo com uma constipação intestinal — que só se resolveu uma semana após a punção. De resto, tudo tranquilo.
Minha punção foi feita exatamente duas semanas depois do início da estimulação. Fui recebida com alegria pela equipe que acompanhou a Thaís na realização, me senti bem à vontade. Na sala de cirurgia, dormi rapidamente com o sedativo e, depois de um breve cochilo, fui acordada com a notícia de que dos 7 folículos que evoluíram, 6 tinham óvulos maduros que foram congelados. Deu tudo certo.
Passei esse dia de repouso por recomendação médica, mas não senti dor, nem cansaço. No seguinte, já fui para um evento de trabalho. Vida normal. Só que, nos próximos, precisei lidar com a baixa de hormônios que me deixou ora deprimida, ora angustiada. Mais intenso que o período de estimulação, mas passou.
O futuro já começou?
Ainda estou avaliando se vou fazer um segundo ciclo de congelamento para aumentar as minhas chances de gestação futura. De todo modo, fico feliz por ter tomado essa iniciativa pela Clara do futuro.
Não sei se vou encontrar um parceiro para formar essa família com que sonho, nem se realmente precisaremos usar os óvulos que congelei. Também não faço ideia se posso acabar decidindo gestar sozinha com doador – algo que não me atrai no momento – ou se, inclusive, decido adotar e esqueço essa história de gestação.
Sabe-se lá o que será do meu futuro, só vou saber quando chegar.
Mas me tranquiliza saber que, caso eu dê a sorte que tanto sonho, caso encontre um cara parceiro para se tornar o pai dos meus filhos, tenho óvulos saudáveis congelados pqra facilitar a realização desse desejo.
E só por essa possibilidade, já valeu a pena.
Sobre a autora
Clara Novais é uma jornalista mineira se desbravando em São Paulo. Viciada em Carnaval, apaixonada por psicanálise e curiosa das relações humanas.






