Ana Maria Gonçalves foi a oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil. Em 2002, ela lançou de forma independente seu primeiro trabalho, Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim, e em 2006 veio ao mundo Um Defeito de Cor, que lhe rendeu uma série de prêmios e a consagração como grande nome da literatura nacional.
143 anos antes do lançamento de seu primeiro livro, Maria Firmina dos Reis – também uma mulher negra – publicava Úrsula, o primeiro romance nacional. Em outras palavras, nesses quase 150 anos que separam as duas autoras, apenas oito mulheres negras puderam contar suas histórias de maneira formal.
Esse contexto, por si só, já é motivo para celebrar o momento em que Ana Maria Gonçalves escolheu a literatura. Mas sua trajetória vai além dessa estatística de pioneirismo.
Ela escolheu um legado diferente
Nascida em Ibiá, Minas Gerais, Ana Maria Gonçalves começou sua carreira trabalhando como publicitária em São Paulo. Aos 29 anos, ao escrever seu próprio obituário, percebeu que não se orgulhava do legado que estava construindo.
Esse exercício introspectivo a impulsionou a largar tudo e mudar-se para a Bahia, onde, durante cinco anos, dedicou-se a escrever as 986 páginas de Um Defeito de Cor. O processo de criação da autora tornou-se quase tão lendário quanto a obra em si: dois anos de pesquisa, um ano para a primeira versão e outros dois de intensa revisão.
Ana Maria Gonçalves escolheu acreditar no próprio trabalho e na história que tinha para contar, uma aposta alta consigo mesma que exige um tipo de coragem e ambição que costuma ser reconhecida e celebrada em homens, mas não em pessoas como ela.
Ela escolheu olhar para a própria história
Outra subversão promovida pela escritora está na escolha da temática que inspirou o romance: a Revolução dos Malês.
Apesar de ser a maior revolta de escravizados da história do Brasil, esse episódio ainda ocupa um lugar marginal nos livros didáticos. Como nos lembra a escritora Chimamanda Ngozi Adichie em O Perigo de uma História Única: “O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer com que ela seja sua história definitiva.”
A história que muitos aprendemos na escola ainda é narrada sob a ótica de homens brancos. Por isso, sabemos mais sobre a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra do Peloponeso do que sobre a luta de homens e mulheres escravizados em nosso próprio território.
Sob a perspectiva dominante, a Revolta dos Malês pode ser vista como um fracasso; mas Ana Maria escolheu revisitar esse episódio a partir da perspectiva das pessoas negras que estavam envolvidas e ali demonstraram sua capacidade de resistência.
Sua protagonista foi inspirada em Luiza Mahin, mãe do poeta Luiz Gama e considerada uma das líderes da revolta. Não há muitas informações oficiais sobre a vida de Luiza, de modo que muito do trabalho de pesquisa de Ana Maria Gonçalves veio de entender mais sobre as mulheres negras da época para construir sua personagem por aproximação e verossimilhança.
Em entrevistas, ela conta que o que a inspirou para esse trabalho foi uma frase de Toni Morrison, escritora estadunidense negra, vencedora do Nobel de Literatura em 1993: “Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo.”
O poder de uma escolha
Ana Maria Gonçalves queria ler um romance que contasse a história do Brasil pela perspectiva de pessoas negras. Ela também queria que seu livro tivesse uma protagonista falha e cheia de humanidade, que reivindica um olhar para com as mulheres negras capaz de dar conta de sua complexidade a partir do imaginário construído pela literatura.
Além disso, a escritora também buscava entender melhor sua identidade racial como mulher negra de pele clara, filha de mãe preta e pai branco. Em suas próprias palavras, “era um livro que queria ter lido e não encontrei”.
Hoje, Um Defeito de Cor já vendeu mais de 150 mil exemplares e passou da 41º edição. O romance faturou o prestigioso Casa de Las Américas, prêmio outorgado pela instituição cubana de mesmo nome.
Em 2022, no bicentenário da Independência, uma enquete da Folha de S. Paulo com 169 intelectuais colocou Um Defeito de Cor no sétimo lugar num ranking de duzentos livros fundamentais para a compreensão do país. Em 2024, a obra virou tema de samba-enredo no carnaval da Portela.
Ao optar por escrever Um Defeito de Cor, Ana Maria Gonçalves fez uma escolha radical – não apenas de contar uma história invisibilizada, mas de mudar o próprio rumo de sua vida por meio da literatura. Ao se lançar nesse projeto, ela desafiou não só o mercado editorial, mas também as expectativas sociais sobre o que significa ser uma mulher negra e escritora no Brasil.
Seu trabalho prova que através da literatura é possível reivindicar identidades, honrar memórias e abrir novas portas para a compreensão do país. Uma escolha ousada que continua a impactar leitores e a redefinir o imaginário de uma nação sobre si mesma.

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