Ana Néri: ela escolheu cuidar

Tudo no mundo começou com um “sim”, conta Clarice Lispector em A Hora da Estrela. Mas podemos complementar dizendo que grandes escolhas também são feitas de “nãos” e de todas as palavras que abrem portas e mudam nosso destino.

No caso de Ana Néri, considerada a primeira enfermeira de guerra do Brasil, tudo começou com um grandiloquente: “Digne-se Vossa Excelência de acolher benigno este meu espontâneo oferecimento, ditado tão somente pela voz do coração”.

Em bom português do século XXI, o que essa viúva de 54 anos estava fazendo ao escrever para o presidente da província da Bahia era pedir: “por favor, me deixe acompanhar meus filhos na guerra”.

Uma mãe no front de batalha

O conflito em questão era a Guerra do Paraguai, o confronto mais sangrento ocorrido na América do Sul. De um lado, o ditador paraguaio Francisco Solano López; do outro, o exército brasileiro, junto às forças armadas do Uruguai e da Argentina, formando a Tríplice Aliança.

Para Ana Néri, porém, o foco não era o cenário político, mas seus filhos – Justiniano, Isidoro e Pedro – que foram enviados de Salvador para o front de batalha.

Em 1864, quando a guerra começou, a expectativa de vida das mulheres brasileiras era de pouco mais de 30 anos. Ana, aos 54, viúva de um militar, poderia ter escolhido a segurança de sua casa.

Ainda assim, ela decidiu seguir para o front como enfermeira voluntária – uma decisão improvável para alguém em sua posição.

Na carta dirigida a Manuel Pinto de Sousa Dantas, ela escreveu:

“Como brasileira, não posso ser indiferente aos sofrimentos dos meus compatriotas e, como mãe, não posso resistir à separação dos meus filhos. […] Desejava acompanhá-los em qualquer lugar, mesmo no teatro da guerra. Mas, como mulher, sou impedida de ir ao front. Assim, ofereço meus serviços nos hospitais do Rio Grande do Sul, unindo os impulsos de mãe com o dever de humanidade.”

Uma escolha de coragem e humanidade

Ao chegar no Rio Grande do Sul, Ana Néri não apenas cuidou de seus filhos, mas de centenas de soldados feridos de ambos os lados, sem fazer distinções. No Paraguai, ela transformou sua casa em uma enfermaria e prestou cuidados a todos que necessitavam.

Desafiando estereótipos, Ana não hesitou diante do caos ou dos horrores da guerra, que dizimou quase toda a população masculina do Paraguai.

Além de prestar cuidados médicos, Ana Néri contribuiu para melhorar as condições sanitárias locais, impondo medidas de higiene que ajudaram a conter a disseminação de doenças e a tratar feridas com mais eficácia.

Seu nome permanece respeitado até hoje no Paraguai e no Brasil, onde a primeira escola de enfermagem do país, vinculada à UFRJ, leva seu nome: Escola de Enfermagem Anna Nery.

O legado de uma escolha

A Guerra do Paraguai deixou um saldo de mais de 300 mil mortos. Entre eles, estava Justiniano, filho de Ana, cujo corpo ela encontrou entre os mortos no campo de batalha.

Mesmo diante dessa dor devastadora, Ana não desistiu e permaneceu ajudando soldados, suas viúvas e órfãos até o fim do conflito. Ao retornar ao Brasil em 1870, trouxe consigo quatro crianças, filhas de soldados mortos e desaparecidos, para criar no Rio de Janeiro, onde viveu até o fim da vida.

Por sua coragem e humanidade, Ana Néri ficou conhecida como a “mãe dos brasileiros”, aquela que escolheu transformar o horror da guerra em um espaço de cuidado, humanidade e esperança.

Mais de um século depois, em 2009, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, reafirmando seu lugar na história.

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