Em primeiro lugar na lista de melhores livros do século XXI do The New York Times está o nome de uma pessoa que não existe: Elena Ferrante.
Esse é o pseudônimo escolhido pela mente por trás de “A Amiga Genial”, primeiro livro da série que ficou conhecida como Tetralogia Napolitana, um marco contemporâneo da literatura que acompanha a vida das amigas Lina e Lenu desde a infância até a velhice.
A história começa no presente, com o súbito desaparecimento de uma delas, e com isso inicia também o jogo de esconde-esconde entre o público e a autora, cuja identidade misteriosa – e toda a curiosidade que seu nome evoca – nos aproxima de Lenu, sempre em busca de capturar a essência de Lina, sua amiga tão genial.
Quem é Elena Ferrante?
Sem identidade revelada, há pouco a ser dito sobre a biografia de Elena Ferrante além de algumas pistas deixadas pela própria: nascida em Nápoles, filha de uma costureira, mãe e, provavelmente, casada.
Em suas raras entrevistas, sempre feitas por e-mail através de seus editores italianos, Ferrante explica que escolheu o anonimato por timidez, admitindo que só consegue publicar seus livros por manter sua identidade em segredo.
Vale dizer que a autora é reservada, mas não é reclusa como outros escritores misteriosos, como Thomas Pynchon e J.D. Salinger. Durante um ano, ela manteve uma coluna no The Guardian e também escreveu para jornais italianos.
Em entrevistas, ela fala regularmente sobre seu próprio trabalho — suas influências, motivações, estados de espírito — e até mesmo sobre suas razões para permanecer escondida.
Para ela, o anonimato é uma forma de proteger sua liberdade criativa, o que permite que o foco permaneça exclusivamente em seus romances e nos temas que explora, como a amizade feminina, a maternidade, e complexas questões de classe.
Em busca de uma mulher sem rosto
Sua decisão de permanecer anônima nem sempre foi respeitada. Desde que A Amiga Genial se tornou um sucesso mundial, a verdadeira identidade de Elena Ferrante desperta tanta curiosidade quanto sua obra.
Em 2016, um jornalista italiano publicou um dossiê usando recibos bancários para sugerir que Ferrante seria uma tradutora que trabalha para a mesma editora que publica os livros da autora misteriosa.
Quando o escândalo veio à tona, as alegações foram negadas prontamente por todos os envolvidos e o jornalista foi criticado por toda a imprensa mundial, que entendeu a empreitada investigativa como uma violação de privacidade.
Assim, a escolha de Ferrante também levanta discussões sobre o papel da mulher na literatura e a expectativa de que autoras sejam acessíveis ao público, como se suas obras fossem reflexos de suas vidas pessoais, e não criações ficcionais.
O sucesso da Tetralogia Napolitana, por exemplo, inspirou muitas teorias sobre qual das protagonistas, Lila ou Lenu, representaria Ferrante, e se personagens como Nino Sarratore seriam baseados em pessoas reais.
Para mulheres, anonimato também é político
Não revelar a identidade é uma escolha que protege a autora dos livros desse tipo de questionamento, assim como julgamentos generalizados a respeito de sua vida pessoal.
Não à toa, suas personagens existem de forma profunda e complexa, num panorama moral sofisticado que nem sempre ou quase nunca é reservado para personagens femininas. A privacidade permite que Elena Ferrante tenha autonomia sobre sua criação e preserve o poder de suas próprias palavras.
Vale dizer também que a escolha de Elena Ferrante de esconder sua identidade vai além de um simples desejo de privacidade; é uma postura política e artística que desafia as normas da indústria literária e cultural.
Assim, o gesto se torna parte integrante de seu legado, uma extensão de sua própria narrativa, que ela escolheu assinar de próprio punho, mesmo sem revelar seu nome.

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