Quantos anos tem Glória Maria?
O mistério sobre a própria idade era uma anedota que costumava acompanhar todo e qualquer perfil feito sobre a jornalista, de mãos dadas com suas importantes credenciais profissionais: a primeira repórter a entrar ao vivo e em cores na televisão brasileira, a primeira repórter a aparecer na TV e a primeira mulher negra a conquistar vários espaços do jornalismo nacional.
Junto a tudo isso, talvez, a primeira mulher a não deixar se definir pela idade publicamente.
Vaidade ou posicionamento?
Num primeiro momento, a escolha de Glória Maria de não revelar a idade pode parecer um mero gesto de vaidade ou autopreservação em uma sociedade marcada pelo etarismo, em que ser eternamente jovem se torna um imperativo para mulheres na esfera pública.
Contudo, em entrevista ao podcast Mano a Mano, a jonalista explicou que não falar da própria idade significava honrar uma tradição familiar.
Glória nasceu no Rio de Janeiro, em uma família pobre do subúrbio. Sua geração foi apenas a segunda a ser registrada de maneira formal em cartório, de modo que seus avós, tios e primos não tinham dados precisos sobre a data em que nasceram.
Dentro de casa, a idade verdadeira das pessoas ou o ano em que nasceram era uma preocupação secundária, e por conta disso, para ela, a própria idade era irrelevante. Em suas próprias palavras, “não importam os números, mas sim o tempo.”
“Você tem que viver para ser livre”
Dessa ancestralidade, Glória Maria também traz a herança de um bisavó escravizado. Esse passado de grilhões fez com que ela crescesse determinada a nunca deixar que tirassem sua liberdade.
Essa determinação, ela conta, veio a partir de um conselho de sua avó: “Nossa história sempre foi de correntes, então você não pode permitir nunca que te acorrentem. Você tem que viver para ser livre, sempre, a qualquer preço, a qualquer custo.”
E foi exatamente dessa forma que ela conduziu a própria vida: sem se prender a uma idade, tampouco às expectativas do que uma mulher negra poderia ser e fazer.
Na entrevista com Mano Brown, Glória Maria não teve problema algum em dizer que muitas vezes mentiu ao falar de sua própria vida, com o objetivo único de confundir o público e alimentar o folclore que existia na mídia a respeito de sua pessoa. Essa era sua forma de ser livre.
Além de abrir caminhos para jornalistas negros e mulheres na televisão, ela também desafiou normas sociais ao escolher contrariar quem quer que fosse que quisesse colocá-la numa caixinha única, seja a respeito da forma como ela usava o cabelo, como se conectava com as grandes estrelas que já entrevistou, e até sobre a forma como encarava as relações amorosas.

Um relacionamento sério com a liberdade
Ao longo de sua vida, Glória Maria teve vários namorados, mas sempre deixou claro que sua felicidade e independência estavam acima de qualquer expectativa externa ou pressão social. Discreta sobre sua vida amorosa, a jornalista dificilmente assumia publicamente algum romance, tampouco se limitava a uma vida monogâmica.
“Viajo muito, então é difícil ter um namorado no Rio, por exemplo. Eu sou uma mulher livre para fazer o que eu quiser. Se eu estou com o namorado, estou namorando; se eu não estou com ele, estou livre. Talvez eu tenha um namorado em cada continente.”, disse em entrevista a Tatá Werneck.
Quando decidiu adotar suas duas filhas, Laura e Maria, ela sempre deixou claro que as meninas não teriam pai e que isso jamais seria um problema. “Minhas filhas não têm pai, eu decidi tê-las sozinha. Sou eu e ponto. O dia em que não puder estar, que morrer, elas terão tudo encaminhado.”, disse.
Ser mãe nunca havia sido seu sonho, nem mesmo um objetivo distante, mas tudo mudou quando conheceu as filhas durante um trabalho social que realizava na Bahia. Sem se preocupar com a coerência narrativa desse caminho, a jornalista abraçou o sentimento e iniciou o processo de adoção.
Idade importa?
Tantas anedotas mostram que a trajetória de Glória Maria não pode ser resumida a um ou outro detalhe biográfico curioso. Sua idade, realmente, não faz a menor diferença.
Mais interessante é olhar para seus feitos como produtos de escolhas cheias de autonomia, poderosas e transformadoras, capazes de construir uma vida extraordinária e inspiradora.

Histórias Inspiradoras






