Juliana Sperandio: “Eu escolhi escolher minha própria voz”

Em 2023, tomei a decisão de tirar do meu peito algo que vinha me incomodando há bastante tempo.

Sabe quando a gente tem uma voz interna que fala conosco, mas que suprimimos porque o caminho indicado por ela não é bem aceito socialmente? Lá dentro, no entanto, sabemos que é o caminho certo a ser seguido.

Eu chamo essa voz de intuição, mas você pode chamá-la como quiser: feeling, comportamento aprendido, bruxaria… Ela vinha conversando comigo há algum tempo, pedindo que eu tivesse coragem para expor, de maneira construtiva, as situações que estavam me incomodando no trabalho. Mas, o medo de ser julgada, diminuída ou rotulada sempre me impedia de abrir o peito e soltar a voz. (Alguém aí já se sentiu assim também?)

Escolhendo um caminho profissional pouco ocupado por mulheres

Como vocês sabem, escolhi um caminho ainda pouco ocupado profissionalmente: a cirurgia. Uma especialidade que, predominantemente, é ocupada por homens, e onde temos poucos exemplos femininos a seguir.

Dizem que não devemos nos definir pelo trabalho. Concordo e acho importante exercitar quem somos além da profissão. Mas, ao mesmo tempo, vejo o trabalho como algo tão importante que ele se torna uma extensão de mim. É nele que reconheço meu potencial de contribuição para o mundo e onde encontro plena felicidade, sentindo-me inteira, exercendo meu potencial ao máximo. É também o espaço em que ajudo tantas mulheres e sou ajudada, todos os dias.

Por isso, posicionar-me sobre temas polêmicos, que podem impactar profundamente esse espaço, é ainda mais difícil.

O cotidiano de violências de gênero

Sempre que sofria algo que considerava violência de gênero no ambiente de trabalho, utilizava os recursos que me ensinaram para minimizar minhas reações, abafar meus sentimentos e evitar falar sobre o assunto.

“Quem é que vai operar, você mesma?” “Tem certeza que, na hora da cirurgia, você não vai preferir chamar seus colegas homens?” “No site, você parecia muito mais mulher; ao vivo, tem cara de menina.” “Quantas horas de cirurgia você já fez para poder operar?” Essas e outras perguntas são recorrentes no meu ambiente de trabalho, tanto por parte de pacientes quanto de colegas e equipe hospitalar.

Freqüentemente, eu ficava calada, minimizando meus sentimentos e buscando formas alternativas de reafirmação. Quando tentei impor-me com clareza e objetividade, ouvi de colegas que minha postura era incisiva demais e que isso poderia prejudicar minha imagem e a das equipes com que trabalho. Afinal, diziam eles, eu estava apenas reagindo a comentários “normais”.

Por fora, fazia cara de paisagem; por dentro, uma revolução acontecia.

Confrontar nossos medos

Muitas vezes, eu me perguntava se seria realmente possível tirar essa voz de dentro e ser ouvida. A cada agressão, minha autoconfiança era minada um pouco mais, e eu sentia que não estava vivendo de acordo com meus princípios. Eu acreditava na liberdade para falar o que penso, de maneira ética e responsável, e na equidade de gêneros nos espaços que ocupo.

Em 2023, decidi que não me calaria mais.

Esse sempre foi um assunto velado nas rodas de conversas médicas. Não ouvia outras mulheres trazendo esse desconforto à tona, muito menos colegas homens defendendo que esse espaço poderia ser ocupado por todos, independentemente do gênero. E, ainda pior: as mulheres que traziam esse tipo de reflexão eram tachadas como “chatas”, “feministas em excesso” ou “reclamonas incapazes de encarar o mundo cirúrgico”.

Foi então que resolvi me armar das ferramentas que ninguém poderia questionar: a ciência. Usar dados e evidências científicas a nosso favor ajuda a construir argumentos irrefutáveis.

Uma escolha pela coragem: o post no Instagram

Decidi fazer um post na minha página pessoal do Instagram expondo o tema.

Romper padrões sociais parece fácil, mas é um processo que exige coragem. Postei com aquele frio na barriga, temendo que tudo voltasse para mim com a agressividade que vinha se impondo ao longo dos anos.

O resultado? O post teve mais de 2000 compartilhamentos, muitos por colegas médicos(as). Pacientes começaram a me procurar por eu ser mulher, identificando-se com o que relatava no post e reconhecendo o mesmo em seus ambientes de trabalho.

Uma mudança silenciosa que ganhou voz

A sensação que tive foi de que o assunto velado começava a virar pauta de conversas poderosas. A coragem de me expor estava abrindo espaço de mudança para outras mulheres e para mim.

A partir daí, comecei a ver um movimento inédito no meio médico. Nos meses seguintes, grandes empresas começaram a promover eventos abordando o tema. Congressos de cirurgia ginecológica incluíram painéis sobre o assunto. O debate tornou-se “cool”, um tema importante a ser discutido.

Perguntei-me se minha coragem de falar publicamente sobre o tema foi o pontapé inicial para essa movimentação. Talvez sim, talvez não.

Mas, no fundo, isso não importa.

Escolhendo a minha voz e o amor próprio

O que realmente importa é que foi uma escolha. A MINHA escolha, naquele momento.

Uma ESCOLHA de tomar coragem e falar abertamente.

Uma ESCOLHA de me expor, colocando o dedo na ferida.

Uma ESCOLHA de não negligenciar mais o que falava tão alto dentro de mim, mas era silenciado pela sociedade.

Uma ESCOLHA de abrir espaço para que outras mulheres também possam falar sobre as violências que sofrem, com acolhimento e oportunidades de mudança.

Bell Hooks escreve que “O compromisso de dizer a verdade estabelece os fundamentos para a abertura e a honestidade, que são a pulsação do amor. Quando podemos nos ver como realmente somos, nos aceitamos e construímos fundamentos necessários para o amor-próprio.”

Que sigamos nos escolhendo, com abertura, honestidade e amor. Escolhendo escutar nossa própria voz.

Sobre a autora

Dra. Juliana Sperandio é ginecologista especialista em fertilidade feminina e faz parte da equipe médica da Oya Care. Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.

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