Escolher. Em um mês, eu estava conjugando esse verbo na 2ª pessoa do singular antecedido por um “tu”; no outro, passei a conjugá-lo mais vezes na 3ª pessoa do singular antecedido por um “você”. Tu escolhe, você escolhe.
Era início de 2023 e eu estava uma pilha de nervos. Depois de nove anos entre faculdade e residência médica, eu finalmente era ginecologista e obstetra em Florianópolis, cidade onde nasci. Aquele ambiente era confortável, seguro. Eu conhecia o mercado de trabalho e a lógica seria fazê-lo me conhecer ao longo dos próximos anos.
Mas eu escolhi.
Escolhi sair de lá e vir para São Paulo para continuar a construir minha carreira com mais um ano de especialização.
Ao final daquele ano, escolhi ficar.
O que eu escolhi
Já perdi as contas de quantas vocês, após dizer que vim de Florianópolis, escutei um veemente: “O que você tá fazendo aqui???”. A resposta é clara dentro de mim.
Estou aqui aproveitando a oportunidade que São Paulo trouxe para a minha carreira como ginecologista especialista em fertilidade feminina. E a minha carreira é grande parte de mim. Ela me traz grande satisfação pessoal e eu já a escolhi muitas vezes; vir para São Paulo foi escolhê-la mais uma vez.
Contudo, sem dúvidas foi a escolha mais difícil até então.
O que eu perdi
A escolha é irmã siamesa da perda. Não há como escolher algo, sem perder algo.
Abriram-se muitas portas para o trabalho, mas não vejo mais o mar no trajeto até o hospital.
Os motociclistas buzinam fervorosa e continuamente por motivos bastante questionáveis, mas também são eles que me trazem tudo o que preciso a qualquer hora (tipo um naked cake com cobertura de m&m’s à meia noite).
Perdi a habilidade de me deslocar sem o Waze, mas ganhei uma infinidade de novos cafés, museus e restaurantes para ir.
Vejo minha família e amigos com muito menos frequência, mas vivencio essa sensação delicinha que é ser anônima nesta cidade de milhões de habitantes.
Tu X você
“Tu” era aconchego, familiaridade, origens.
“Você” era profissional, seriedade, adaptação a uma nova cidade.
Hoje, “tu” e “você” misturam-se na minha fala e mostram para mim a pluralidade e a riqueza que essa escolha me trouxe.
Eu escolho “você”, São Paulo.
Sobre a autora
Dra. Mariana Schmidt é ginecologista especialista em fertilidade feminina e faz parte da equipe médica da Oya Care. Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.
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