Uma das melhores e também mais difíceis escolhas da minha vida foi a de voltar para o Brasil depois de quase 3 anos trabalhando na França, na área que eu mais amo dentro da ginecologia, a fertilidade.
Eu nunca quis viver fora do Brasil. Sou muito apegada ao meu país, amigos e família. No entanto, tive a oportunidade de viver fora e trabalhar num serviço de reprodução humana da França, com grandes nomes da área em nível mundial, como o professor René Frydman, responsável pelo primeiro “bebê de proveta” do país, o quinto a ser feito no mundo.
Além da possibilidade de aprender com grandes mestres, o que mais me cativou nessa oportunidade foi o fato de que na França todos os os tratamentos de reprodução assistida – incluindo o congelamento de óvulos – são subsidiados pelo governo. Isso acontece graças a uma política de saúde pública que visa a garantir o direito reprodutivo dos cidadãos, visto que as taxas de natalidade estão diminuindo há algum tempo no país.
Reprodução assistida à francesa
Graças a esse benefício, qualquer pessoa pode ter acesso aos mais diversos tratamentos. Dessa forma, é possível pensar na reprodução assistida sem um dos principais obstáculos que brasileiros e pessoas de quase todo mundo enfrentam, que é o financeiro.
Isso também significa que eu, como residente, tinha a chance de realizar muito mais procedimentos do que seria possível no Brasil — uma média de 40, 50 por semana. Graças a esse incentivo, perdi, inclusive, a dimensão de quantos pacientes eu já atendi ou em quantos casos eu já atuei.
Ainda hoje, tudo que envolve congelamento de óvulos, fertilização in vitro, inseminação intrauterina e afins está atrelado a custos altos, já que estamos falando de medicações de valor elevado e procedimentos que envolvem tecnologia e profissionais de ponta. Esse nada pequeno detalhe faz com que a conversa sobre reprodução assistida no Brasil ainda seja um debate restrito e elitizado.
Dinheiro x autonomia reprodutiva
Além disso, tratam-se de procedimentos que, estatisticamente falando, tem poucas chances de sucesso numa primeira tentativa. Muitas vezes é necessário repetir o tratamento para que os resultados sejam positivos; na França, o seguro social garante essa cobertura, coisa que não acontece no Brasil.
Ou seja, além de precisar lidar com esses resultados que nem sempre são o que a gente espera, é preciso lidar também com a frustração do custo. Por aqui, a reprodução assistida ainda é vista como um luxo, mas estamos falando de questões de autonomia reprodutiva tão relevantes quanto o acesso a métodos contraceptivos seguros e eficazes.
Poder vislumbrar uma realidade em que o dinheiro não era um problema, somado a um ritmo de vida muito mais simples e calmo do que eu tinha em São Paulo, foram pontos que fizeram minha temporada na França ser enriquecedora também do ponto de vista pessoal.
Ao longo dos anos, vivi ativamente o dilema entre ficar na França — um país que não era meu, mas que, em contrapartida, me permitia viver diariamente a medicina que sempre sonhei — ou voltar para o Brasil e encarar todas as dificuldades do nosso sistema. Eu escolhi voltar.
Reprodução assistida à brasileira
Essa decisão foi pouco racional e muito sonhadora, confesso. Eu sonhava em voltar para poder estar perto das pessoas que amo, mas também queria muito a oportunidade de cuidar das pessoas e dividir parte do que aprendi com outras colegas, a fim de aprimorarmos os cuidados com a fertilidade no Brasil.
Não é surpreendente, portanto, que a realidade tenha sido frustrante e um tanto quanto distante do retorno que idealizei.
Quando comecei meus atendimentos, eu trabalhava com infertilidade — o nome técnico da especialidade é esse, “infertileuta”. Era muito frustrante encontrar mulheres inférteis que nunca tinham sido orientadas e aconselhadas sobre a finitude dessa fertilidade, que vem sobretudo com a idade e muitas vezes de forma silenciosa, já que não somos ensinadas a cuidar proativamente da nossa saúde reprodutiva.
Falar de promoção da fertilidade, dessa conscientização, ainda é algo extremamente inovador, no Brasil e no mundo.
A importância da prevenção
Por isso, vi na Oya a possibilidade de conscientizar as pessoas a respeito de um tema tão caro para mim, que é a fertilidade. Não à toa, foi a partir desse pilar que começamos ao lançar nosso monitoramento preventivo de reserva ovariana, uma jornada que batizamos de Descoberta da Fertilidade.
Estar na liderança médica da Oya Care com certeza é um desafio diário, mas me sinto realizada em poder dividir o meu conhecimento e então multiplicar os cuidados com o planejamento reprodutivo de muitas pessoas.
Existe um lado da reprodução assistida que pode ser muito mercadológico e é importante também mostrar que é possível adotar uma abordagem mais humana, mais conectada com as pessoas. É nisso que eu acredito.
Eu escolhi voltar para o Brasil, mas tenho certeza que o que aprendi fora daqui ficará pra sempre enraizado na minha forma de cuidar.
Sobre a autora
Dra. Natália Ramos é ginecologista especialista em fertilidade feminina e líder médica da Oya Care. Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.
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