Nise da Silveira foi uma psiquiatra que desafiou as práticas tradicionais de seu tempo e revolucionou o cuidado à saúde mental no Brasil e no mundo. Tudo isso graças ao seu olhar humanizado e acolhedor para as pessoas com transtornos mentais, coisa rara de se ver nas décadas de 1930 e 1940.
Na época majoritariamente dominada por homens, a psiquiatria brasileira se baseava fortemente em métodos de isolamento e práticas violentas – como lobotomias, choques elétricos e camisas de força – como solução para os considerados “inaptos” para a vida em sociedade.
Mas Nise acreditava que era possível olhar e cuidar dessas pessoas de outra forma. Mas antes, um pouco de história: em 1936, na ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, Nise da Silveira foi denunciada por possuir livros marxistas em casa, o que foi suficiente para que ela acabasse na prisão. Durante os dezesseis meses de reclusão, ela teve a chance de conviver com figuras históricas, como a revolucionária Olga Benário Prestes, e o escritor Graciliano Ramos, e também de entender de maneira profunda os efeitos da reclusão sobre a mente das pessoas.
Em entrevista à revista Marie Claire, concedida em 1991, ela declarou que “Naturalmente, depois de uma prisão, a visão de mundo se modifica. Quem sabe, se eu não passasse por essa experiência, talvez tivesse me tornado uma psiquiatra comum e entrado nos trilhos tradicionais.” Ao conhecer de perto a realidade do isolamento, Nise da Silveira escolheu fazer as coisas de outro jeito.
Nise da Silveira: uma rebelde na psiquiatria
A postura de Nise da Silveira em relação às práticas clínicas muitas vezes era vista como forma de insubordinação, motivo que a levou a ser transferida para o setor de Terapia Ocupacional no hospital em que trabalhava. A área em questão era completamente desvalorizada do Centro Psiquiátrico Nacional, um espaço sem médicos onde os pacientes eram colocados para realizar serviços de limpeza. Foi ali que ela encontrou seu espaço para inovar.
Inspirada pelas ideias do psiquiatra suíço Carl Jung, Nise via na arte uma forma de acessar o inconsciente dos seus pacientes. Ela acreditava que, ao darem forma a seus mundos internos através da pintura, os pacientes revelavam aspectos de sua psique que poderiam ser trabalhados no tratamento.
Segundo as autoras Aryane Cararo e Duda Porto de Souza, “Ali, ela criou dezessete ateliês, entre eles de costura, marcenaria, modelagem e pintura. A ideia era dar liberdade para os clientes, como ela preferia chamá-los, se expressarem e se comunicarem.”
Esse método pioneiro foi revolucionário e acabou sendo reconhecido mundialmente, trazendo louros também para seus autores.
“Muitos deles ganharam reconhecimento no universo das artes plásticas, caso de Emygdio de Barros e Fernando Diniz. Mário Pedrosa, um dos mais influentes críticos de arte, ficou tão impressionado com o trabalho dos internos que levou o diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, Leon Degand, para conferir. O resultado foi a exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, em 1949 (a primeira mostra externa tinha sido em 1947, no Ministério da Educação e Saúde, no Rio). Nise e seus pacientes começavam a ficar famosos e a incomodar ainda mais os médicos que menosprezavam seus métodos — e chegavam a duvidar da autoria dos quadros.”
Aryane Cararo e Duda Porto de Souza – Extraordinárias (2017)
A abordagem acolhedora e afetiva de Nise da Silveira também trouxe transformações importantes à forma como se tratava de pessoas com esquizofrenia. A literatura médica da época acreditava que esses pacientes não possuíam afetividade e, por isso, deveriam ser internados. Nise, contudo, discordava. Segundo suas próprias palavras, “A loucura está profundamente ligada ao desamor, portanto é preciso amor para salvar alguém da loucura.”
O caminho que encontrou para estimular e promover o afeto para esse grupo foi o da introdução de gatos e outros animais no ambiente hospitalar, a quem ela chamava de “co-terapeutas”. Em contato com os pacientes, os animais se tornavam uma fonte de conforto e vínculo afetivo, o que contribuía para seu desenvolvimento emocional.
Essas escolhas pouco ortodoxas lhe custaram caro. Sendo uma das poucas mulheres em uma área dominada por homens, Nise foi ridicularizada, contestada e sabotada por seus colegas. Sua resistência às práticas tradicionais a colocou em uma posição de isolamento dentro da psiquiatria, mas sua persistência inabalável acabou sendo maior que o preconceito.
Um legado de amor
Em 1952, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, hoje com mais de 360 mil obras e documentos. A iniciativa virou um centro de estudos psiquiátricos com reconhecimento internacional, que chamou atenção até mesmo do próprio Jung, que, de inspiração, tornou-se correspondente de Nise da Silveira na década de 1950.
Ao escolher seguir um caminho de afeto, criatividade e respeito às individualidades, Nise da Silveira desafiou as normas rígidas de uma psiquiatria que desumanizava os pacientes. Sua luta pela dignidade e pelo cuidado empático mudou para sempre o tratamento psiquiátrico no Brasil e no mundo e fez dela uma pioneira da Reforma Psiquiátrica no país, um movimento que lutava pelo fechamento gradual de manicômios e hospícios que proliferavam por aqui.
A lei que promoveu a reforma por apresentada só em 1989 e entrou em vigor em 2001, tendo como diretriz principal a internação do paciente somente se o tratamento fora do hospital se mostrar ineficaz, bandeiras defendidas por Nise da Silveira desde a década de 1940. Ela escolheu cuidar de uma forma que conectava as pessoas à sua humanidade, uma escolha reverbera até hoje, inspirando novas formas de tratar o sofrimento mental.

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