Nora Ephron: ela escolheu (não) contar o fim de sua história

Antes mesmo de se tornar uma pessoa que escreve, Nora Ephron aprendeu com seus pais, roteiristas de Hollywood, o segredo profissional que viria a definir sua carreira: tudo é cópia. Em bom “publicitês, tudo é copy, ou seja, tudo que acontece pode se transformar em texto, uma história a ser contada.

As colunas que Nora Ephron escreveu sobre o universo feminino na revista Esquire, no início de sua carreira, eram inspiradas em sua própria experiência e na de pessoas que estavam ao seu redor. Ephron era do tipo que preferia perder amigos a perder uma boa história. Com uma habilidade única para transformar os momentos cotidianos em narrativas memoráveis, ela se valia desse poder de observação para capturar nuances profundas das relações humanas.

Não à toa ela se tornou uma contadora de histórias de amor singular, que tem no currículo comédias românticas que nasceram clássicas e redefiniram o gênero, como “Mensagem Pra Você” e “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”.

A vida como inspiração

A virada das páginas de revista para o cinema aconteceu quando Nora Ephron decidiu “copiar” a maior tragédia de sua vida: o fim de seu casamento. Ela estava grávida do segundo filho quando descobriu as traições do marido – que era ninguém menos do que o também jornalista Carl Bernstein, responsável pela reportagem que revelou o escândalo de Watergate – e decidiu sair de casa.

Após seis meses de fossa e com duas crianças pequenas no braço, Nora transformou a mágoa no livro “A Difícil Arte de Amar” (Heartburn), um best-seller autobiográfico que mudou sua carreira para sempre e teve adaptação para o cinema com Meryl Streep e Jack Nicholson nos papéis principais.

A máxima “tudo é cópia” também pode ser interpretada a partir da provocação de Magritte em sua obra mais famosa: uma vez copiada, ou seja, transcrita para o papel ou para as telas de cinema, os fatos se transformam em algo diferente, algo seu que pode ser controlado, coisa que a vida real não permite. Essa subversão nos ajuda a entender o que se passava na cabeça de Nora Ephron ao decidir esconder um diagnóstico terminal de sua família e amigos.

Ephron foi diagnosticada com leucemia mieloide aguda em 2006 e, durante os seis anos que se seguiram, ela escolheu manter sua condição em segredo. Nem amigos próximos, nem colaboradores, sabiam que ela estava lidando com uma doença grave, com poucas chances de sobrevivência.

Quando sua morte foi anunciada, muitos ficaram surpresos e se perguntaram por que uma mulher tão aberta sobre suas mazelas particulares escolheria esconder algo tão monumental. É só em retrospecto que seus trabalhos mais recentes, muito focados na temática do envelhecimento, revelam por que, “de repente”, a mortalidade se tornara um tema tão caro para a autora.

Nora Ephron escolheu o silêncio

Morrer em silêncio foi a solução que Nora Ephron encontrou para controlar sua própria narrativa mesmo diante da fragilidade da vida e da impotência humana em relação ao fim inevitável. Como uma escritora que sempre acreditou no poder de contar a própria história, e que várias vezes salvou sua vida ao transformá-la em história, seu silêncio foi uma forma de ter a palavra final.

Ao decidir não compartilhar seu diagnóstico, Ephron estava também protegendo a história sobre si mesma que ficaria no mundo, evitando que sua identidade fosse reduzida à de uma paciente terminal.

Alguns anos após sua partida, seu filho, o também jornalista e escritor Jacob Bernstein, entrevistou amigos, familiares e colegas de trabalho da mãe para elaborar sua morte através de um documentário, intitulado “Tudo É Cópia” (claro). Quase todos afirmam que não perceberam nada diferente a respeito de Nora nos seus últimos anos, exceto por uma nova doçura e amabilidade para com aqueles que ela amava, um traço bem-vindo para uma pessoa conhecida por sua língua afiada mesmo com os mais próximos.

Alguns recordam também que seus últimos dias foram marcados por longos almoços, jantares e conversas que só depois os amigos perceberam que se tratavam de eventos de despedida.

Se, em vida, Nora Ephron não se permitiu ser definida por seu casamento, seu corpo, sua idade e até mesmo pela condição feminina  – que não permitia às mulheres da época a ousadia que sempre esteve presente em seu trabalho – não parece tão surpreendente assim que ela tenha encontrado uma forma de dirigir a própria morte.

Ao mesmo tempo, a conclusão de seu filho ao final do documentário foi que a mãe transformava em texto as coisas perdidas sobre as quais ela gostaria de reivindicar o poder – como seu casamento e a própria aparência física diante do envelhecimento –, enquanto aquelas que a mãe escolheu manter por perto, seus bens verdadeiros – amigos, amores, até mesmo a vida – estariam preservados de seu escrutínio narrativo. 

O direito de morrer com privacidade era uma dessas coisas, que só se tornou uma história a ser contada quando ela já não estava mais aqui. Graças à sua escolha, Nora Ephron manteve consigo o poder de ser protagonista até o fim.

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