Desde a Grécia Antiga, as Olimpíadas aproximam os homens dos deuses. Hoje, com o avanço da tecnologia e dos mais diferentes recursos para otimizar performances, atletas redefinem dia após dia o que é a perfeição.
Para os esportistas, o grande objetivo é parecer o mais imune possível às falhas e fragilidades humanas, em busca de um lugar no Olimpo.
Foi nesse cenário que Simone Biles, a maior ginasta de todos os tempos, fez algo revolucionário: mostrou sua vulnerabilidade. Humana, demasiadamente humana. Ainda bem.
O que significa fazer história
Em julho de 2021, o mundo ficou atônito quando Biles anunciou sua saída da final por equipes nas Olimpíadas de Tóquio.
A expectativa em torno dela era imensa: aos 24 anos, ela já acumulava mais de 30 medalhas entre Mundiais e Jogos Olímpicos, incluindo quatro ouros no Rio de Janeiro, em 2016. O público, que esperava ver a consagração de uma campeã, favorita a conquistar pelo menos mais seis medalhas de ouro, acabou presenciando algo ainda mais histórico.
Após um salto com erro na aterrissagem e uma nota abaixo do que se espera de alguém como ela, Biles decidiu se retirar da competição para cuidar de sua saúde mental. “Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos, e não apenas fazer o que o mundo espera que façamos”, afirmou em coletiva de imprensa.
O diagnóstico era algo que muitos atletas conhecem bem: os “twisties“, um bloqueio mental que faz com que o ginasta perca momentaneamente a consciência corporal e espacial – algo crucial na ginástica artística. Esse fenômeno, segundo especialistas, é alavancado por episódios extremos de estresse.
“O show tem que continuar”: será?
Biles poderia ter respirado fundo e seguido em frente, como se espera que os grandes atletas façam. Se tivesse sucesso, seria mais uma daquelas histórias de superação dignas de manchetes olímpicas. Mas ela escolheu dizer “não“.
Sua recusa em ultrapassar seu próprio limite foi um ato de coragem que quebrou o silêncio em torno da saúde mental no mundo do esporte e seu impacto nas vidas pessoais de cada um e também no que se vê nos placares – um tabu ainda presente em muitas delegações esportivas.
Com sua escolha, ela redefiniu o que significa ser forte, abrindo caminho para que outras pessoas, atletas ou não, também se permitissem fazer o mesmo.
O exemplo de Simone Biles
Em um mundo que nos pressiona a performar o tempo todo – no trabalho, nos relacionamentos, na vida pessoal – a escolha de Simone nos ensina que a pausa também é uma forma de avanço.
Sua decisão foi uma reivindicação pelo direito de ser humana antes de ser campeã, um lembrete de que a estabilidade mental é tão essencial quanto a performance física, e de que, às vezes, a escolha mais difícil é a que nos salva.
Ela escolheu cuidar de si mesma para continuar sua jornada nos seus próprios termos. E nos mostrou que a verdadeira força também está em dizer “não” ao mundo e “sim” à nossa própria saúde.
Sabe o que aconteceu quatro anos depois? Simone Biles voltou às Olimpíadas e foi campeã em Paris, conquistando mais três medalhas de ouro.
Quanto tempo faz que você não se escolhe?

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