Há cinco anos, quando a Oya Care nasceu, a definição de cuidado já tinha um caráter pessoal e individualizado para Ste Von Staa, fundadora e CEO da empresa. A inquietação diante do próprio relógio biológico, a busca por respostas que não vinham de uma medicina que não foi pensada para pessoas do sexo feminino e até as percepções de uma adolescência vivida no campo ajudaram a construir o que hoje é a essência da Oya: um espaço onde ciência e acolhimento se encontram para transformar a experiência de saúde das mulheres.
De lá pra cá, muita coisa mudou. A Oya já impactou a vida de mais de 9 mil pessoas, oferecendo não apenas consultas e procedimentos, mas também algo que parece simples e ainda assim raro: uma conversa honesta, atenta e informada sobre o corpo feminino. Essa escuta tem ajudado quem passa pela clínica a reduzir a ansiedade, fazer planos e se sentir mais autora de suas próprias escolhas.
Mas, ao mesmo tempo, o caminho da saúde da mulher continua cheio de desafios. A ciência ainda engatinha em temas como contracepção, endometriose e fertilidade. Faltam investimentos, pesquisas e ferramentas que poderiam tornar a experiência das mulheres mais justa e menos dolorosa. Essa é uma frustração que persiste — e também uma das maiores forças que movem a Oya a continuar existindo.
Nesta entrevista, conversamos com Ste Von Staa, fundadora e CEO da Oya Care, sobre o que mudou nesses cinco anos, o que ainda precisa mudar e como ela enxerga o futuro do cuidado em saúde feminina no Brasil. Uma conversa que passa por realizações, inquietações e inspirações e que nos ajuda a entender por que a Oya é, cada vez mais, um lugar único de cuidado.

O mito fundador da Oya passa muito por questões e desafios que você enfrentou ao longo da vida pra cuidar da sua saúde. Seja quando você morou numa fazenda na adolescência e a percepção que você teve de cuidado nessa época, seja pelas suas inquietações sobre seu próprio relógio biológico te levou a trazer a ideia de avaliação preventiva de fertilidade para o Brasil.
Agora, cinco anos depois, como está o seu olhar sobre a ideia de saúde e o que tem te inspirado/revoltado nesse meio?
São sentimentos ambivalentes. De um lado, existe uma realização enorme, principalmente quando vejo feedbacks das oyanas, seja no NPS, no service-rating, em mensagens de Whatsapp e nas avaliações do Google. É muito gratificante. Vejo que as pessoas estão encontrando na Oya o que elas não encontraram em nenhum outro lugar, que nada mais é do que uma conversa, uma experiência acolhedora e também informativa. Isso muda a vida das pessoas, muda o nível de ansiedade, ajuda elas a fazerem planos ou a ajustarem seus planos.
É muito legal ver que esse propósito da Oya já é uma realidade para mais de 9 mil pessoas hoje.
Por outro lado, é frustrante ver como a ciência ainda está atrasada quando se trata dos corpos femininos. Hoje, por exemplo, oferecemos o congelamento de óvulos, mas tenho certeza que esse processo de preservação da fertilidade poderia ser melhor do que ele é hoje. A experiência feminina poderia ser muito melhor. Temos ótimos métodos contraceptivos, mas será que eles não poderiam ser melhores, menos invasivos com menos efeitos colaterais? Na verdade, a gente não sabe essas respostas porque ainda não existe muito bolso de dinheiro focado para pesquisas nesses segmentos. A endometriose também é muito chocante. Não existe um raio-X da endometriose ou um raio X da fertilidade. Isso ainda me frustra muito.
Me frustra pensar que os instrumentos de pesquisa e desenvolvimento [de soluções de saúde] ainda sejam limitados. Consequentemente, o que a gente pode oferecer para as oyanas também é limitado.
O que você acha que mudou na forma como falamos e pensamos em saúde e bem-estar nesses últimos cinco anos?
Sinto que há cinco anos a maioria das pessoas ainda acreditava que ser saudável era estar todos os exames do check-up em dia. Do outro lado tinha a beleza, que era resolvida com tratamentos, cirurgia plástica, academia. Hoje a gente vê esses dois universos como uma coisa só. As pessoas estão misturando esses conceitos na própria cabeça, o belo agora é ser saudável. Na Oya, queremos propor que bonito é estar saudável na SUA melhor versão, não um saudável estereotipado que dita que o nariz deve ser de um único jeito, o corpo de outro. Mas será que é sempre saudável ser magro, por exemplo? A gente sabe que isso depende do corpo de cada um, do seu biotipo.
A mudança, então, está que antes a beleza estava muito separada daquilo que era cientificamente respaldado. Hoje essas coisas estão juntas, mas não sei se de uma forma saudável. Acho que juntamos as duas a partir de um lugar de vaidade. Nosso desafio hoje, daqui pra frente, é aprofundar essa narrativa e ajudar as pessoas a serem mais como elas mesmas, não só do ponto de vista da fertilidade, mas também do melhor corpo para elas considerando seu biotipo, seu estilo de vida, suas prioridades. Tudo isso deve vir independente do que é considerado belo ou não.
E nos próximos cinco anos, para onde a Oya vai?
O que eu desejo é servir mais pessoas. Se hoje a gente atende quase 10 mil mulheres, quero saber como a gente chega em 50 mil, um milhão. Tudo isso sem perder a qualidade. O foco da Oya nunca esteve em volume [de consultas] ou crescimento a qualquer custo. Nossa obsessão está em manter a qualidade dos nossos serviços e isso é um dos meus grandes motivadores.
Em segundo lugar, quero que as pessoas que trabalham na Oya tenham uma vida boa. Isso é muito importante também. A maioria esmagadora das pessoas está aqui há mais de dois, três anos, e isso é muito bom porque a gente consegue ter muita confiança uns nos outros. Não precisamos fazer reunião para alinhar tudo, porque a gente sabe que a outra pessoa tá fazendo o seu melhor. Essa confiança traz eficiência para o nosso dia a dia, reduz o número de reuniões, ajuda a aprofundar os conceitos que a gente nasceu para oferecer.
Em termos mais práticos, imagino que a gente pode expandir algumas linhas de cuidado, principalmente nesses lugares em que a saúde ginecológica e o bem-estar se encontram. Questões como endocrinologia e saúde mental são áreas que a gente pode explorar, mas ainda não tenho muitas definições.
De uma perspectiva pessoal, a experiência de trabalhar com saúde mudou a forma como você entende o que é ser saudável?
Quando eu era mais nova, tinha uma visão mais estática do que era a saúde. Tinha sempre um certo e um errado. Hoje entendo que existe o que é certo para cada corpo, cada momento e experiência de vida. Hoje sou mais flexível sobre o que considero certo e errado. Tem que passar por uma análise individual de cada caso, não só do ponto de vista biológico, mas também do contexto de vida de cada um.
E como você se cuida hoje?
Faço exercício físico quase todos os dias, se não todos os dias. Faço musculação, yoga e corrida, principalmente. Faço massagem, o que sei que é um luxo, mas é um luxo que eu me permito ter. Também passeio com meus cachorros, o que é uma coisa que parece simples, mas que muda muito a minha energia.
No momento estou em busca de hobbies. Descobri que não tenho um hobby e aparentemente todo mundo precisa de hobbies para ser feliz. Hoje faço parte de um clube do livro, que é um hobby meu, mas talvez seja o único. Passear com meus cachorros pode ser um hobby? Enfim, acho que isso é realmente importante.
Qual é o maior desafio de empreender no segmento de saúde e bem-estar atualmente?
O posicionamento da Oya é muito único no Brasil, porque a gente não é uma clínica normal de ginecologia onde você vai desde que menstruou pela primeira vez, por exemplo. Também não é exatamente aquela clínica de infertilidade que você procura quando está há um ano sem conseguir engravidar. E não é a clínica de bem-estar que oferece sound-healing, meditação, yoga, etc.
Mas a gente está nesse meio do caminho, tentando trazer a medicina de um modo acolhedor para qualquer pessoa que queira e tenha interesse em entender o próprio corpo de acordo com seu contexto. Isso é algo muito difícil de explicar, consequentemente difícil de fazer as pessoas entenderem. Muita gente hoje considera a gente ou uma clínica normal, ou uma clínica de wellness, ou um Instagram…
Somos esse player único no Brasil e esse é um lugar difícil não de construir – porque a demanda é alta, o business tem espaço pra crescer – mas de fazer as pessoas entenderem, investirem, e a gente precisa disso para abrir caminhos. As pessoas tentam colocar a gente em uma caixinha, seja de clínica tradicional ou de Instagram, o que torna difícil o momento de criar relações com investidores, planos de saúde, esses players que são importantes pra gente ter capacidade de atender essa demanda crescente.
Como você explica a Oya para as pessoas hoje?
Eu falo que a gente é uma clínica de saúde feminina, nosso CNPJ é clínica de saúde feminina. A gente entrega isso da melhor maneira possível para cada pessoa, cada caso. Se ela quer tirar uma dúvida com uma médica de forma rápida, online, oferecemos esse serviço. Se ela quer congelar óvulos, a gente tá ali. Se ela quer investigar endometriose, a gente ajuda do começo ao fim. Temos serviços online, clínica física, fazemos procedimentos complexos – cada tipo de dor tem uma solução adequada. É assim que eu explico.
Você acha que esse boom de wellness ajuda ou atrapalha quem está no mercado para cuidar das pessoas dessa forma?
Sempre que existe um boom, existe muita gente pouco séria [querendo entrar no jogo]. Isso deixa o mercado com muitos ruídos e você precisa se manter consistente em meio a esses ruídos. O desafio da Oya hoje é surfar essa onda. Ela é positiva. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem que manter nossa consistência, a partir da ciência e da medicina ocidental, que é o que nos comprometemos a entregar. Até o público entender o que é ruído e o que é sério, demora um tempo. Mas nada é melhor do que um trabalho bem feito, um trabalho sério. Só que o resultado desse trabalho só vem com o tempo.
Até o público entender o que que é ruído e o que que é sério demora um tempo. Imagino que depois desse boom muita coisa não vai se manter, por não serem sérias. A ideia é que a gente se mantenha num nível mais alto, a partir da onda que estamos vendo agora, mas sempre com a mesma seriedade.
O que tem te inspirado atualmente?
Duas coisas me inspiram muito nesse momento. Uma é a Mata Atlântica, que pra mim é um exemplo de caos organizado. Você olha para a Mata Atlântica vê a fauna toda junta, numa exuberância de vida. Parece confuso, mas existe uma organização ali, existe espaço para todos os tipos de planta viverem e prosperarem. Isso é muito interessante e propõe um modelo de pensamento muito diferente do cartesiano. Esse é um modelo mental que me inspira muito. Tento trazer isso pro meu time, entendendo o potencial de cada um. Penso em como as pessoas podem contribuir para a Oya e não o contrário, ou seja, eu escolho o que eu preciso e tento achar alguém que se encaixe.
Todas as pessoas que trabalham na Oya vieram pela missão, a partir disso a gente entende qual é o potencial dela e a coloca pra exercer esse potencial. Isso me inspira bastante e não é muito cartesiano, não é muito reto.






