Minha trajetória com a Terapia Hormonal (TH) começou muito antes dos meus próprios sintomas do déficit de estrogênio. Como endocrinologista, acompanhei as idas e vindas da ciência sobre o climatério, testemunhando a evolução dos tratamentos antes mesmo de sentir suas primeiras ondas em mim.
Vivi a era do uso quase indiscriminado de hormônios, no final dos anos 90, seguida pelo terremoto causado Women´s Health Initiative (WHI), estudo controverso que espalhou um temor paralisante sobre o câncer de mama e possíveis riscos cardíacos relacionados às terapias com estrogênio. Vi, de dentro do consultório, as prescrições despencarem e as mulheres se afastarem do tratamento pelo medo.
O que se seguiu foi um periodo onde a saúde feminina foi deixada em segundo plano, mergulhada em desinformação. Mesmo quando os novos estudos — e a releitura do próprio WHI — trouxeram a segurança da “janela de oportunidade” para a terapia hormonal — período que vai dos primeiros dez anos após a última menstruação ou até os 60 anos —, o estigma permaneceu.
Em meio a tudo isso, eu me esforçava para me manter atualizada sobre as melhores práticas, com o objetivo de cuidar das minhas pacientes da melhor forma possível. Mas saber de cor a lista dos principais sinais e sintomas não me impediu de ser surpreendida por eles.
Quando o climatério bate na porta
Meu primeiro fogacho foi na academia. Na mesma hora, brinquei com a minha personal: “Então é assim que a gente morre?”.
A real é que o fogacho não é só um “calorzinho”. É uma sensação de mal-estar e uma vontade imensa de que aquilo acabe logo. Muitas mulheres inclusive sentem náuseas durante os fogachos. Mas, se o calor é o sintoma mais famoso desse período, o que realmente me deu um nó na cabeça foi a insônia. Eu, que sempre dormi muito bem — bem até demais — comecei a despertar às três da manhã, toda noite, sem motivo. Aquilo não fazia sentido para mim.
Junto com a insônia, vinha a angústia: “O dia vai amanhecer e eu não vou ter energia para nada”. A chegada do climatério veio com uma mistura de não me reconhecer, temperada com sintomas desconfortáveis e uma pitada generosa de angústia. Uma combinação injusta, não?
Para mim, como para tantas mulheres, tudo isso aconteceu bem quando meus papéis sociais também estavam sendo postos em xeque. Meus filhos tinham acabado de sair de casa para estudar. Eu chorava e já não sabia se era pela insônia, pela angústia ou pelo famoso “ninho vazio”. O que me salvou foi reconhecer os sinais e tratar os sintomas cedo. A terapia hormonal adequada foi fundamental para aliviar os fogachos, a insônia e o ressecamento vaginal.
Mas não é mágica, nem mesmo para médicas: leva semanas até a melhora ser realmente significativa.
“Já vivi mais da metade da vida”
Ainda assim, não se engane. Mesmo com os sintomas do climatério sob controle graças à terapia hormonal, não sou mais a mesma de antes. Meu corpo mudou. A gordura resolveu se concentrar no abdômen — algo novo até para mim, que sempre tive o privilégio de um biotipo “padrão”. Meu desempenho nos treinos também mudou. Hoje, entendo como isso é simplesmente inaceitável para muitas mulheres.
No consultório, vejo pacientes que se ressentem por não terem a mesma facilidade de antes para perder peso, treinar, ou recuperar-se de uma doença, ainda que priorizem a saúde no dia a dia. É nesse momento de vulnerabilidade que muitas caem em promessas milagrosas ou no uso de anabolizantes para “voltar a ser quem eram”.
Eu acredito, de verdade, que podemos ser muito saudáveis e felizes após a menopausa, mas precisamos entender que as mudanças são um processo natural. Exercício, terapia hormonal e informações sobre o processo são nossos maiores aliados.
Hoje, me sinto bem. Mas o climatério me colocou de frente com a constatação de que já vivi mais da metade da vida. Tenho mil sonhos e planos, me sinto jovem, mas é como se eu estivesse no auge de uma palestra empolgante e meu corpo levantasse uma placa lá no fundo dizendo: “Faltam 15 minutos para o final”.
Nessa hora, você tem duas escolhas: entrar em pânico porque o tempo está passando ou usar esses minutos para viver só o que realmente interessa, sem gastar tempo com o que não faz mais sentido.
Sobre a autora
Carolina Rocha Betônico é endocrinologista, professora e participou da elaboração da edição de 2025 da Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes.
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