Master of None: infertilidade, solidão e o poder das histórias

A infertilidade costuma ser uma experiência solitária e as poucas histórias que temos sobre o tema ainda estão associadas a padrões normativos. A própria definição de infertilidade da OMS ainda é limitada à experiência de casais cisgênero e heterossexuais, mas a terceira temporada de Master of None, escrita por Aziz Ansari e Lena Waithe, veio para adicionar outros olhares a essa história.

A seguir contamos alguns spoilers sobre o enredo, mas juramos que eles não interferem na experiência!

Master of None mostra o poder das histórias

‍Desde o início, “perspectiva” foi o conceito que serviu de linha dorsal para Master of None. Na primeira temporada, acompanhamos o “protagonista” Dev e sua turma de amigos vivendo sua vida de jovens adultos em Nova York, e cada episódio tem como enfoque algum aspecto dessa vivência: trabalho, relacionamento com os pais, família, sexo, amores.

A segunda temporada, por sua vez, mistura a estrutura já conhecida com uma virada conceitual um pouco mais radical: rodados quase como um longa-metragem, alguns episódios se focam especificamente no relacionamento de Dev com Francesca (Alessandra Mastronardi) – e mostra como podemos viver experiências parecidas, mas ter impressões completamente diferentes sobre elas. Nosso gênero, raça, e história ajudam a moldar essas diferentes visões.

Já em outros episódios, Master of None tira o foco de Dev para contar histórias que vemos com menos frequência por aí: as diferentes “saídas do armário” de Denise (Lena Waithe), uma mulher negra e lésbica, para sua família, e as diferentes vidas de personagens tipicamente novaiorquinos que dificilmente são lembrados nas grandes narrativas sobre a cidade. Moments of Love, que marca o retorno da série em 2021, fala de maternidade, amor e amizade, mas na vida de mulheres negras e lésbicas – Denise e Alicia.

É a perspectiva, ou melhor, as diferentes perspectivas que costuram juntas uma série que não possui uma única trama, um único protagonista, um único tema. O que ela nos oferece são perspectivas sobre diversos temas e a potência que existe quando acessamos histórias a partir de perspectivas que são invisibilizadas. A fertilidade (e suas diferentes faces) é uma delas.

Em cena de Master Of None, Alicia manuseia seringa e frasco

Infertilidade & solidão

‍Em Moments in Love, título alternativo da terceira temporada de Master of None, conhecemos Alicia (Naomi Ackie), uma mulher que quer ser mãe. Mas Alicia é uma mulher lésbica, negra, de 37 anos, que quer ser mãe por conta própria, reivindicando autonomia sobre seu sonho de formar uma família, e é com muita delicadeza que a série mostra os altos e baixos do processo.

Em poucos episódios, Master of None consegue tocar em pontos importantes dessa jornada, como a forma com que pacientes LGBTQIA+ são invisibilizados nas políticas públicas e de planos de saúde relativas a fertilidade. Ao mesmo tempo, a produção consegue encontrar espaço para explorar alguns detalhes íntimos que não costumam aparecer nos protocolos que conhecemos sobre rotas alternativas para a fertilidade: o peso emocional da terapia hormonal, os pequenos constrangimentos, a ansiedade e, sobretudo, o silêncio, a solidão.

@oya.care

Encarar um tratamento de infertilidade pode ser uma experiência para lá de desafiadora. A infertilidade tem um impacto emocional importante – para muitas, é um sonho que está em jogo. Por aqui acreditamos que tão importante quanto cuidar da saúde física é também prestar atenção na saúde mental e, acima de tudo, se acolher durante essa jornada. Pensando nisso, convidamos a psicóloga Julyelle Conceição para nos ajudar com dicas para encarar o período com mais leveza e autocompaixão!Vamos juntas

♬ Crystal – Kupla

No entanto, ao lançar luz sobre esses momentos, a série consegue tirar essas histórias, e principalmente essas pessoas, da alienação. A infertilidade costuma ser uma experiência solitária, mas não precisa ser assim. Boas histórias possuem o poder de transformar essa jornada em uma experiência menos obscura e mais coletiva, com acolhimento e todos os direitos necessários para quem precisa enfrentá-la.

Boas histórias tornam nossos medos menos assustadores, e é por isso que precisamos falar de fertilidade. Vamos juntas?

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