Sou daquela época que crescíamos doutrinados pelos ideais de se casar, ter filhos e constituir uma família. E, diga-se de passagem, dizer “sou daquela época” já é revelar um pouco da nossa idade.
Para lhes situar melhor, então, melhor dizer sou do início da década de 90. Nesse momento, vejo e sinto meus 35 anos se aproximarem cada vez mais, um marco importante para a fertilidade feminina.
Os óvulos e eu
Contamos com um estoque de óvulos que é abastecido quando ainda estamos dentro do útero da nossa mãe. Ao nascermos, essa reserva cai pela metade e estaciona, até que, a partir da primeira menstruação, voltamos a perder cerca de mil folículos (a “casinha” onde os óvulos ficam aguardando maturação) a cada ciclo menstrual, até que o estoque se esgota, marcando a chegada da tal da menopausa. Nesse meio do caminho, mais precisamente depois dos bendito 35, a qualidade dos óvulos começa a cair junto com a quantidade.
Na minha primeira década de vida, brincar de boneca era rotina e isso, de certa forma, instigava o “instinto maternal”, pois era prazeroso experienciar a situação do cuidar e era divertido fantasiar uma família feliz, em que eu era a figura materna.
Ingenuamente, isso despertava a fantasia de um dia transformar essas brincadeiras em realidade.
E o que dizer sobre os contos de fadas? As emocionantes histórias que nos prendiam a atenção e nos faziam, inevitavelmente, romantizar o encontro com o príncipe encantando e esperar o “felizes para sempre”. Toda essa fantasia era reforçada pela figura de minha mãe, uma importante referência de carinho, amor, afeto e cuidado. Eu queria ser igual a ela.
Só que a gente cresce e “sai da casinha”. Tanto no sentido lúdico, quanto no sentido literal, naquele momento em que saímos de casa para ganhar o mundo, deixando para trás a zona de conforto. Devo essa garra também ao exemplo dos meus pais, que com seu empenho, dedicação e reconhecimento no trabalho, me inspiravam a querer ser igual a eles um dia.
Sonhos e expectativas
Mas até chegar lá, se foi mais uma década de vida…
Seis anos de faculdade de medicina, mais três de residência em ginecologia e obstetrícia e um ano na especialização em reprodução humana. Junto a esse tempo, milhares e milhares de óvulos.
E agora? Chegou a hora de realizar aquele desejo despertado lá na infância? Calma, ainda não.
É hora de focar no trabalho, conquistar o meu espaço, construir o que sonhei profissionalmente e que, imagino, me trará estabilidade e segurança, inclusive para ter meus filhos. Em meio a tudo isso, ainda é preciso encontrar O pai dos meus filhos e não UM pai para os meus filhos – ou seja, alguém que eu admire, que seja especial e que me ame também.
Vejam, essa visão de amor e parceria vem de tudo que ficou enraizado a partir dos contos de fada lá da infância. Saber disso não muda o fato de que queremos e merecemos ser felizes. Nessa busca, lá se foi mais meia década de vida e, pelas minhas contas, estou quase chegando aos 35 anos, aquela idade que sempre digo para minhas pacientes que representa um momento chave para a fertilidade feminina, de acordo com a média.
Agora que cheguei aqui, vejo que o sonho de ser mãe permanece vivo, mas ainda sinto que não chegou a hora. Tenho outras prioridades, certas questões que ainda exigem minha atenção para que então possa abrir espaço para o que imagino que seja o momento ideal.
A tal reserva ovariana
Eis que chegou a minha vez de conhecer minha própria reserva ovariana, de saber se ela está adequada para idade, e de refletir sobre o meu próprio planejamento reprodutivo como acompanho minhas pacientes fazerem cotidianamente. Meu lema é estar sempre um passo a frente da nossa reserva, já que não conseguimos voltar atrás depois que ela vai embora.
Com 32 anos, fiz a dosagem do hormônio antimülleriano pela primeira vez. Não me recordo exatamente o resultado, mas era algo próximo de 2,5 – para meu alívio, o valor estava dentro do que esperado para a idade.
Em meio ao turbilhão de outros pensamentos, de outras preocupações, e de tantas responsabilidades, quase dois anos se passaram. Com eles, muitas pacientes e muitas histórias misturadas a expectativas e sentimentos que me alertavam sobre o tempo passando e a necessidade de agir.
Chega uma hora em que precisamos tomar as rédeas de nossa própria vida, nos fazermos prioridade e nos cuidarmos com a mesma responsabilidade e carinho com que cuidados de outras pessoas. Se a hora de ser mãe ainda não tinha chegado para mim, era necessário tomar providências. No meu caso, congelar meus óvulos.
De médica a paciente: hora de congelar os óvulos
O congelamento de óvulos não garante uma gravidez no futuro, mas nos dá mais tempo e flexibilidade na tomada de decisões quanto a maternidade e nos possibilita adiar esse sonho com certa tranquilidade. Mesmo quem já tem uma decisão concreta sobre não ter filhos pode optar pelo congelamento de óvulos para se permitir a chance de mudar de ideia no futuro.
Pode ser que nunca precisemos utilizar os óvulos guardados, mas, se um dia for necessário, sabemos que temos com o que contar.
É fundamental individualizarmos essa reflexão, traçando um planejamento reprodutivo norteado pela estimativa da reserva ovariana do ponto de vista quantitativo, pela qualidade inferida através da idade, e considerando também o contexto e planos de vida.
O processo
O primeiro desafio dessa decisão de congelar óvulos provavelmente é o de aceitar o processo, talvez por romantizarmos a maternidade (como eu mesma já fiz), talvez por termos aprendido desde cedo que a maternidade natural e espontânea faz parte do ciclo de vida de toda mulher.
O segundo desafio é o do planejamento: se preparar financeiramente, programar a agenda para conciliar o procedimento com a rotina, se colocar como prioridade quando estamos sufocadas por uma agenda atribulada. Certamente, essa parte foi um obstáculo para mim, tanto que adiei o procedimento por dois anos mesmo já estando decidida a fazê-lo.
Com tudo resolvido, é hora de se organizar para fazer o congelamento de óvulos acontecer na prática. Isso significa se organizar com os horários das medicações, entender a dinâmica dos deslocamentos até a clínica onde será feito o monitoramento da estimulação ovariana, tirar um dia livre quando chegar a hora de realizar a punção e aceitar a recomendação de repousar pelo resto do dia após o procedimento.
Somente quando tudo começa a acontecer é que surgem reflexões que você nem imaginou que teria, como:
A expectativa e a ansiedade que te fazem estimar sua potencial resposta ao tratamento (ou seja, quantos óvulos será possível congelar naquele ciclo);
A ansiedade de aguardar o tempo de cada um dos processos;
A curiosidade para saber se tudo está evoluindo de acordo com o esperado;
O medo de não atingir sua própria expectativa em relação ao resultado.
Junto a tudo isso, vem a missão de aplicar em si mesma diversas injeções para estimular o crescimento dos folículos, uma nova demanda que atrapalha seu sono até nos dias de folga; a necessidade de abrir mão do vinho por alguns dias e adaptar a rotina de exercícios para algo mais adequado e leve.
No dia da punção, vem o estranhamento de estar no ambiente misterioso que é o centro cirúrgico. Não imaginei que me sentiria assim, mas foi realmente revelador me ver do outro lado daquela relação, agora como paciente. Me vi diante de um sentimento de impotência, de não ter o controle da situação — algo que nós, médicos, estamos muito acostumados a ter.
Em meio a esse looping, surgem os rostos familiares da equipe médica que escolhi para me acompanhar, pessoas que confio e que me passam segurança. De repente tudo está rodando com o início dos efeitos da anestesia. Sem perceber, apaguei.
O despertar da anestesia é acompanhado pela sensação de um soninho gostoso e reparador. Aos poucos fui voltando a mim, até me dar conta do que estava acontecendo e fazer a pergunta que não quer calar nesse momento: e aí, quantos óvulos? 17, foi o que me disseram de início, mas ainda não era definitivo, já que eles precisariam passar pelo processo de limpeza antes do congelamento, uma espera de algumas horas que passam como se fossem dias inteiros.
O que fica após o congelamento de óvulos
Estima-se que 70% dos folículos deem origem a óvulos maduros, mas só na prática é que sabemos exatamente o tamanho do buraco do “funil”. No meu caso, 12 óvulos foi o número final.
Será que esse número estava dentro do esperado? Isso é suficiente? Qual seria o número ideal? – eis algumas das perguntas que sempre surgem quando revelo para minhas pacientes a quantidade de óvulos que conseguimos congelar. Costumo dizer que comparações devem ser feitas de forma individualizada, considerando a idade de cada pessoa e a reserva ovariana estimada.
Como meu antimülleriano estava dentro da média para a minha idade, o mais lógico seria um resultado dentro da média para o congelamento de óvulos. No entanto, meu ovário esquerdo respondeu muito pouco ao processo de estimulação.
Para minha sorte, o direito trabalhou para ambos e finalizei o processo com uma quantidade de óvulos considerada satisfatória, correspondente ao que foi estimado no início da jornada.
Uma parte de mim suspirou de alívio; outra, mais ambiciosa, queria um pouco mais de segurança. Meu histórico profissional me fez lembrar com compaixão das pacientes que não tiveram a mesma sorte, seja por uma reserva ovariana baixa, seja por uma resposta aquém do esperado ao processo de estimulação.
Ainda assim, existe um número ideal de óvulos considerado mais seguro?
De uma forma geral, o mais indicado é que pessoas de até 35 óvulos congelem pelo menos 15 óvulos. Acima dessa idade, é melhor congelar 20, já que se tenta compensar a queda da qualidade com quantidade. Mas isso não quer dizer que congelar menos óvulos é sinônimo de não chegar a uma gravidez no futuro, da mesma forma que muitos óvulos também não garantem, necessariamente, o sucesso. Portanto, pensar em “número ideal” significa, de novo, olhar para cada caso de forma individualizada, levando em conta idade, contexto e planos para o futuro de cada pessoa. Também não podemos esquecer que existem outras soluções para a maternidade, como a gestação com óvulos doados, que chamamos de ovorrecepção, e até mesmo a adoção.
Como sou humana, ainda me pergunto se farei outro ciclo de congelamento de óvulos para tentar chegar aos 15 gametas idealizados. Independentemente de qualquer coisa, já consigo sentir a sensação de liberdade proporcionada por essa escolha baseada num longo processo de autoconhecimento.
E é isso que desejo a todas vocês. Vamos juntas?
Sobre a autora
Dra. Ana Flávia Hostalácio é ginecologista especialista em fertilidade feminina e faz parte da equipe médica da Oya Care.Esse depoimento faz parte do projeto É Tempo de (Re) Escolher. Conheça mais histórias de escolhas inspiradoras clicando aqui.
A fertilidade feminina está diretamente ligada à saúde e à quantidade de óvulos disponíveis nos ovários — a chamada reserva ovariana . O que é a reserva ovariana? Definição: quantidade
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